A Gruta do Lou

Barrados no Baile

Esta semana, jantei na casa do Daniel Fresnot, uma noite. Quando cheguei, ele estava ouvindo discos (vinil) do pessoal da Tropicália (Caetano, Betânia, Gil e Gal) mais Chico Buarque e, enquanto eu pensei que eles haviam ficado velhos, o Daniel relatou o fato de tê-los conhecido pessoalmente e até convivido com eles, naquela época. No fim ele disse: Eles fizeram músicas muito boas, mas perderam a inspiração.

Essa frase soou como uma revelação, as pessoas antes de ficarem velhas, perdem a inspiração e são barradas no baile. Enquanto for capaz de criar, em qualquer campo de atividade, sobretudo nas artes, estarei vivo, ainda que o mundo tente me convencer do contrário.

Cheguei a uma idade em que sou lembrado, a todo instante, a fase da vida onde me encontro. Em uma sociedade Darwiniana como a nossa, a idade torna-se uma das manchas capazes de excluir a pessoa do grupo selecionado, em outras palavras, ser impedido de entrar na festa. Não apenas os velhos, os menores de dezoito anos também passam por isso.

Taí mais uma fantástica marca registrada de Jesus: Ele veio com a missão de incluir os excluídos. Enquanto o mundo marcha excluindo os portadores de manchas (quem não tem a idade certa, a cor certa, o sexo certo, o nariz certo, o cabelo certo, o peso certo, os peitos certos, a bunda certa, os olhos da cor certa, a saúde certa, a altura certa, o conhecimento certo, o QI certo, o currículo certo, estado civil certo, a religião certa, a grana certa, a roupa certa, e uma infinidade de itens seletivos certos).

Jesus é todo inclusivo, inclusive, cometeu o desatino subversivo de declarar ter vindo para os doentes, ou seja, os excluídos, como razão de sua missão.

A igreja cristã é uma sociedade altamente seletiva. Se não for a maior, certamente figura entre as grandes excluidoras da sociedade contemporânea, na contramão dos ensinos de Jesus. Ele andou recolhendo portadores de deficiências, endemoniados, crianças, órfãos, viúvas e todo tipo de indivíduos segregados de sua época para abrigá-los sob suas asas.

Não estou me referindo à participação deles em cultos ou missas, apenas, mas em tratá-los com igualdade e amor, de tal forma que sintam-se parte do todo, em todas as situações. Talvez, o mais importante seja perguntar se essas pessoas estão tendo uma vida digna, com suas necessidades básicas supridas e o afeto necessário que faz alguém sorrir. Sobretudo, não julgá-los se estiverem endividados, mal vestidos e despejados, mas ser capaz de estender-lhes a mão, lavar-lhes os pés e tratar suas feridas.

Jesus morreu relativamente jovem e avisou que sua morte precoce seria necessária para que o Espírito Santo assumisse a função de nos vivificar e permitir que fizéssemos obras maiores do que as que ele fez. Não sei quanto a você, mas minhas obras andam meio tacanhas diante das pretensões de Jesus.

A ideia não é apenas carregar uma bíblia, um crucifixo pendurado no pescoço e frequentar uma igreja aos domingos, mas ser inspirado por ele, vinte e quatro horas por dia, a praticar as mesmas obras que ele praticou e não barrar ninguém no baile.

Talvez seja a fórmula mágica para construirmos um mundo sustentável e ainda esperar pela tal vida eterna, se não me engano.

6 thoughts on “Barrados no Baile

  1. O Evangelho é totalmente inclusivista. A Igreja em compensação…

    Deve ser coisa de autores, no caso dos evangelhos, o autor é divino.

  2. Cara, não dar uma de “leão-de-chácara” e permitir que todo mundo participe do banquete é uma tarefa difícil, senão impossível para nós, pobres mortais. Não só as igrejas, sejamos francos, mas individualmente, eu, eu mesmo, sou seletivo e segregacionista de tantas formas e em tantos momentos… misericórdia!!!

    É irmão, melhor se arrepender… 🙂

  3. Muito bom, Lou.
    Hoje estava mesmo pensando nisso: O Espírito sopra onde quer, não sabemos de onde vem, nem pra onde vai.
    Mas acho que quando restringimos e bloqueamos o fluxo do divino pra dentro de nós, ou pra dentro da nossa experiência coletiva de cristianismo, a igreja, fazemos que o sopro vá fazer efeito em outros lugares.
    Temos que ser cada diz mais inclusivos, eu creio nisso.
    Qualquer teologia de “grupinho”, exclusivista, para mim, está em desacordo com o Deus que amou o mundo.
    Braços estendidos.
    Um abraço e a paz!

    “Temos que ser cada diz mais inclusivos, eu creio nisso”.

  4. Lou,

    no início de minha caminhada evangelical, cai na besteira de, para total constrangimento nosso, levar ao culto (de uma igreja batista de classe média-média) a empregada lá de casa, que era crente. Ficamos isolados em um canto qualquer. Nunca mais voltei a fazer isso, para o bem da empregada, meu e da igreja.

    Valeu compartilhar esse fato!

  5. Na minha opinião, as igrejas evangélicas são totalmente inclusivistas, basta ver que a maioria dos crentes sairam de condições miserabilistas. Que tal vizitarmos igrejas da periferia da Zona Leste de São Paulo, onde me converti? Teologia à parte (Obra X Fé, Fé X Obras), os cristãos do Brasil. principalmente os pentencostais, têm cumprido seus papéis eclesiásticos.

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