A Gruta do Lou

As dores de Deus

Versão Revista e Atualizada

A Bruna me lembra de Oséias. Onde estará o hilário nesse personagem? Certamente ele não era calvinista. Sorte dele ter vivido muito antes disso. Perco amigos, que ainda não eram, só ao manifestar meu desejo em não assumir rótulos anti-calvinistas. Você pode até não querer, só não pode se manifestar. Calvinismo é mais ou menos como a democracia, todo mundo quer ser por razões politicamente corretas, mas quem é realmente?

Já viu alguém escrever sobre suas crenças pentecostais da gema? Ah, ontem a profeta veio aqui em casa para orar por nós e Deus falou através dela, aos nossos corações e depois passamos um tempão orando em línguas. Aquilo testificou muito. Aquela mulher é cheia do Espirito Santo.

Para mim, Oséias mostra algo tremendo da personalidade de Deus. Em certo sentido, estou como esse profeta sofredor. Deus fez com que ele sentisse as suas dores divinas. Toma aí Oséias, sinta um pouco do que eu próprio sinto e entenda-me. Que tal ser casado com uma prostituta, alguém que mesmo quando está com você, só pensa em transar com outros? Meu povo é a grande prostituta com quem me casei.

O Deus do Antigo Testamento era muito mais interessante. Era forte, esperto e vencedor. Quem andava com ele, também. Jesus estragou a imagem do pai dele. Fez dele um Deus Pai, amoroso, doce, fraco e perdedor. No tempo de Oséias, era o profeta quem sentia as dores. Jesus tomou as dores sobre si e crucificou-se com elas. Como não deu certo, resolveu voltar ao velhos métodos e não me dá sossego. Será que ninguém mais está a fim de levar Deus a sério? Não custa nada, só uma cruz nas costas, morro acima.

Claro está, a história de Oséias é uma grande tragédia, mas eu a encenaria com muitas risadas. Minha esposa não gosta quando falo de minha identificação com esse profeta. Deus não me mandou casar com nenhuma prostituta. A mim ele faz sentir suas dores por um povo escravizado, manipulado e oprimido por governantes perversos, sob o olhar contemplativo da igreja calvinista omissa, da pentecostal subserviente e vice-versa. Os pentecostais ainda têm a seu favor o empenho evangelístico (ou seria proselitista?) e as obras sociais, enquanto os filhotes de calvino defendem a reforma que só cruzou o Atlântico norte.

Fico imaginando Oséias sentado em sua poltrona a espera da mulher. Com quem ela estará transando hoje? Hoje é quarta-feira, deve ser o Zé da farmácia, ou será o Mané jornaleiro? Quem sabe não é o dia do Rubão da oficina? Ou com todos juntos? Não é engraçado? Deve ser cômica a vida de um corno manso. Aí, quando ela volta para casa, Oséias a recebe de braços abertos, abraça a mulher e lhe diz, dias melhores virão, enquanto ela pensa: O que estou fazendo com esse velho babão? Amanhã cedinho pego minhas coisas e sumo daqui. Hilário não? Não sei como você não está se matando de tanto rir.

Estou aqui na Gruta, sentado em minha poltrona e imaginando onde andará o povo de Deus. Engraçado que o povo é dele e eu é que sinto as dores. Será que não tem alguém com mais credibilidade, mais jovem e mais adaptado para esse papel. Sou, completamente, o avesso do esteriótipo. Hoje é quarta-feira, eles devem estar na Primeira Igreja. O Reverendo fará uma palestra sobre a Reforma, como sempre, ou estarão todos reunidos na Água Branca, falando sobre uma vida com propósitos, versão tupiniquim. Mas podem estar lá no Morumbi ouvindo o mineiro pregar com sotaque americano, enquanto exalta o timinho do Jardim Suspenso ou aquele cearense chorão, de barriga cheia. Provavelmente, antes de voltarem para casa, todos darão uma passadinha no Grande Templo Universal da João Dias para pegar a benção dos trezentos e dezoito. Os mais providos irão a Saddleback Valley ou Willow Creek adquirir penduricalhos a preço de ouro (ou petróleo antes da crise). Depois não sabem por que Deus os deixou.

Tudo isso acontecendo enquanto o mundo anda as voltas com Baracks, Putins e Chaves. Neles repousa a salvação da humanidade. Que graça sem graça! Tudo bem, mas aviso, estou sentindo as dores de Deus, com o Thomas me olhando com cara de interrogação, endividado, sem perspectivas, sem oportunidades, sob a tortura dos verdugos que não nos dão tréguas. Pior é ouvir os conselhos: por que você não faz alguma coisa? Arrume um emprego, abra um negócio, não fique aí parado. Estou assim porque o povo de Deus está assim. Não o povo de Warren, Tonicodemus, Edir, Gordim e Fed, mas falo do povo de Deus, por quem ele (eu) sofre essas dores.

Então, não é hilário? Pare de rir, os vizinhos pensarão o que? Xiuuuuuuuuu!

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2 thoughts on “As dores de Deus

  1. E ainda tem “Igreja” que nos aparece com nomes do tipo: “pare de sofrer” afe.
    Ontem eu ainda li um post do Blog Igr Emergente, crise tá na moda msm.
    Mas são poucos o que aceitam viver e aprender na crise…
    =/

    De minha parte, preferiria não viver em crise, mas ela é compulsória, imagino.

  2. O livro de Oseias para mim é o que mexe mais com o meu coração, por mostrar de maneira tão apaixonada e sofredora, a dor de Deus.
    Não estou a rir agora Lou!
    Forte este post.
    Mas real… muito e muito real!
    DTA

    Mas não é de bom tom falar de coisas reais, pessoal prefere mais a ficção.

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