Ao Deus desconhecido

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Nunca estive em meio a um incêndio. Entretanto, tento imaginar a angústia de uma pessoa em uma situação dessas, talvez no trigésimo sexto andar de um prédio, e busco simular alternativas para ela. Com fogo consumindo tudo, por todos os lados, qual é a saída?

Minha vida foi marcada por três grandes incêndios. O edifício Andraus na Av. São João (16 mortos), depois o Joelma no Anhangabaú (182 mortos) e, mais recentemente, o prédio da TAM, em Congonhas, por causa de um avião desgovernado (200 mortos). Em meio a essas vítimas, havia cristãos devotos, judeus, católicos, espíritas e muçulmanos, até. Certamente eles clamaram a Deus por suas próprias vidas e pelas outras envolvidas, também. Nos casos do Joelma e da TAM, os deuses não atenderam ninguém e foram todos para o beleléu.

Em situações parecidas, próprias das pessoas engrutadas, sobram frases conhecidas. Deus mostrará um caminho. Ore, jejue e o Senhor lhe dará uma saída. Fazem parte de alguma teologia bem ou mal estruturada. Aquilo que conseguimos pensar sobre o criador, nessas horas, faz parte dessas estruturas teológicas humanas, em outras palavras, gente que faz ousadas asseverações sobre o que não entende, mas fala com convicção. Creio ser a única saída para uma situação dessas, você nunca ter estado lá.

A grande verdade é: não sabemos como Deus é e age ou quem ele é. Tantas e tantas vezes ele me parece injusto, desligado, insensível, meio “não to nem aí”. Conheço tantas pessoas necessitadas do deus de alguma dessas teologias. Alguns casos comportariam perfeitamente o deus de Calvino, outros estariam bem servidos com o deus próspero do Benny Hinn, o deus com propósitos de Warren e Hybels seria bem oportuno, já imaginaram o pessoal relacionando propósitos no meio de um incêndio desses? Afinal, motivação e esperança não faltam nessas horas. O deus da turma do G12, igualmente, seria recebido com efusivos aplausos ou o deus cheio do espírito santo dos assembleianos, não importa, qualquer um desde que aparecesse um deles, pelo menos, nessas horas de grande aflição da humanidade. Sem falar nas situações muito piores, como as guerras, holocaustos, terremotos, furacões e tsunamis. Os outros deuses, até os dos índios, dos negros e dos metalúrgicos são tão omissos quanto.

Gente simples como nós, pecadores sim, não mais do que ninguém, não faz questão disso ou daquilo, não importa se é eleição, predestinação, decisão, salvação, propósitos, prosperidade, whatever. Somos pouco afeitos às cerimônias ou crenças. Tudo que desejamos é uma mão salvadora como aquela estendida por Jesus a Pedro, no episódio esquisito da água, quando estivermos presos a um incêndio qualquer ou naufragando. A sensação de desamparo, de insignificância e descaso é insuportável e injusta, num momento desses. Os piores sentimentos passam por nosso interior, da inveja ao rancor, do ódio ao medo.

Não quero ler e muito menos ouvir sobre o deus de ninguém, agora. Se você tem um Deus de verdade, traga-o aqui e mostre-me suas ações divinas. Melhor, mostre-o a algum maltrapilho miserável mais perto e à mão de onde você esteja. Mas, por favor, não fale dele e não escreva sobre ele. Melhor o seu silêncio, caso não possa mostrá-lo.

Certa vez perguntei ao Zenon Lotufo Junior sobre qual seria a resposta certa nesse emaranhado de deuses, filosofias, psicologias e teologias? Ele, sem pensar muito respondeu: os gregos pensaram em tudo, depois deles, ninguém conseguiu criar mais nada.

Lembrei da experiência de Paulo em Atenas e o deus desconhecido. Seria esse o verdadeiro Deus?

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8 thoughts on “Ao Deus desconhecido

  1. Pingback: Lou Mello
  2. Lu querido!

    Tens aqui o meu silêncio, com todo o respeito, meu amigo!

    beijo carinhoso,

    Neli

    Nossa! Estava retocando a pintura ainda, e seu comentário já estava aqui. Isso sim é fidelidade! 🙂

  3. Lou, Deus em minha vida foi/é uma leve passagem, eu diria que Deus perpassa por ela, ou melhor, eu finjo que sinto que Deus perpassa pra não me sentir tão só. Eu forço a barra entende? dou uma força pra ele, finjo que sinto ele numa situação ou noutra, mas é tudo da minha cabeça mesmo. Sinto que Deus precisa de mim, precisa que eu prove pra ele que ele existe. Preciso ajudar ele a me ajudar, se é que me entende. E vivo atribuindo soluções que eu mesma acho (bem ou mal) a ele, ou seja, eu faço as coisas e ele fica com os créditos. E ainda por cima, as coisas que dão errado, eu faço a ele o favor de atribuir a mim, ou seja, Deus em minha vida vive numa boa, eu fico com os problemas e as soluções, e ele com a majestade. Meio que por aí. Mas tudo isso eu faço justamente pra Deus me deixar em paz, porque eu morro de medo que ele me ache e tasque um problemão em mim daqueles que eu não possa resolver mesmo. Será que falando isso aqui eu corro algum risco?

    Não corre risco algum, mesmo porque Deus raramente passa por aqui. Ele vive perdendo tempo com os figurões, em sites e blogs cults. Pelo menos, é o que os caras juram acontecer. Você está antecipando um outro post meu, cujo título é Deus de estimação. Quem sabe termino e posto brevemente. É por aí mesmo.

  4. Eu acho legal aquela descrição de Deus na brisa suave, quando Elias tá na gruta. Tão suave que a gente nem nota, mas… está lá.

    Talvez você tenha chegado bem perto da verdade, ou seja, quando ele parece não estar, está e quando pensamos estar, não está.

  5. Eu creio nesse Deus que eu não compreendo e que também foi implacável comigo. Para meu espanto, ainda assim, eu sei que Ele me ama…

    “Pela fé entendemos que o universo foi formado pela palavra de
    Deus, de modo de que aquilo que se vê não foi feito do que é
    visível.”
    — Hebreus 11:3

    Vai entender…

    Crer nele é bom, os problemas começam quando tratamos de definí-lo, desse ou daquele modo.

  6. Acho incrível o verbo “Ser” usado por Deus, o resto é conversa fiada. O que me preocupa é essa parafernália teológica que nós humanos inventamos.
    Ah Lou, acredito nas 7 vidas do gato, ele anda pelas Igrejas até hoje, acredita ?

    Ah, então deve ser por isso que o pessoal chama a igreja de “um balaio de gatos”. 🙂

  7. Como vc me disse em Sorocaba..

    Perderam o verdadeiro nome de Deus…

    Nesse meio, devem ter perdido o próprio Deus..

    Abraços Lou

    ...e isso faz tempo…

  8. o edificio joelma era um lugar q tinha muita gente e agora ñ tem ningen q coisa como as coisas muitan do dia para a noite mais eu acredito na lenda do EDIFICIO JOELMA pois é uma coisa muito verdadeira pois eu queria entra no edificio ver como ele é por dentro ver td e qm sabe até esculta vozes das pessoas q morreran naquele incendio do joelma…………….

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