A Gruta do Lou

Amor Equivocado

Um amigo e discípulo (não ria, por favor) divorciou-se, algum tempo atrás. Uma das razões disso foi o amor equivocado. É, isso mesmo, amor equivocado. Erich Fromm escreveu, em A Arte de Amar, um dos melhores livros que li, e olha que não li poucos, sobre várias formas equivocadas de amar.

Depois de um tempo, quando seu casamento deu mostras de ser duradouro, muitas pessoas perguntarão a razão desse fenômeno. Em nosso caso, foi o fato de nosso amor não incluir a tarefa de um modificar o outro e posso acrescentar mais um: sermos responsáveis por nossos sentimentos, pelo menos na maior parte do tempo. A maior armadilha para perdermos o controle do que sentimos é quando vivemos tentando modificar aos outros, em detrimento de modificar a única pessoa que podemos modificar, ou seja, eu mesmo. Minha esposa faz muitas coisas do jeito dela e eu faço muitas coisas do meu jeito. No começo era estranho, mas depois de trinta anos, sabemos que não faz a menor diferença fazer assim ou assado.

Divirto-me observando as pessoas, chama a minha atenção toda vez que alguém emite sinais claros de não ser responsável pelos seus sentimentos: “Ah, estou chateado porque minha mulher não passou a camisa que eu gosto mais”. Pronto lá vai um cara que acabou de deixar a esposa determinar seus sentimentos. Gosto muito do John Powell, ele escreveu grandes livros e gosta de Análise Transacional como o Zenon e eu. Um deles, cujo título é “Por que tenho medo de dizer quem sou”, traz o delicioso exemplo do cara que passava pela banca de jornal, diariamente, e cumprimentava o jornaleiro, que nunca lhe retribuía. O amigo, testemunhando isso, não agüentou e perguntou: “Você cumprimenta esse fresco todo dia e ele nunca retribui, não era para você estar fulo da vida com ele?” Então ele responde: “Não meu caro, nos meus sentimentos mando eu, não permitirei jamais que ele me diga como devo me sentir”. Quando uma pessoa controla o que você sente, ela assume o controle de sua vida, seu bobão.

Infelizmente, com essa mudança de Gruta para Caverna, cuja decisão não foi motivada por qualquer pessoa específica, além de mim, algumas pessoas (duas ou três, um rapaz e duas senhoras) deram mostras de que nutriam pela Gruta e, talvez por mim, amor equivocado. Na verdade, já se sentiam donos do pedaço e estavam certos de poder me manipular. Quando exerci meu direito de fechar a geringonça, sem querer, disse a eles quem mandava. Seus argumentos sentimentais não me constrangeram. Também não fiquei e não ficarei com sentimentos negativos em relação a eles, mesmo que continuem a deixar injustas suposições e imprecações desmerecedoras a meu respeito, pelos blogs afora. Talvez permita certa tristeza por saber que estão enganados, agiram de forma egoísta e partirão ofendidos. Na Gruta, a maioria dos visitantes, leitores e comentaristas sempre foi de mulheres, na proporção de dois para um. Machistas somos todos nós, latinos de sangue quente, homens e mulheres, ou as mulheres não são tão machistas quanto nós, quando exigem sermos os provedores? Fomos marcados a ferro e fogo para sermos machistas, desde criancinhas. Lembro de minha mãe repetindo milhares de vezes que homem não chora. Agora sou obrigado a camuflar minhas lágrimas todas as vezes que elas insistem em aparecer.

Na Caverna seguiremos livres. Quer comentar comente. Sempre estaremos sob risco de não ser aprovados. Falar, escrever e todas as formas de expressão incluem contratos secretos e pode ser que, em algum momento, algo que dissermos ou escrevermos desagrade alguém. Pior se for o dono do blog, porque ele tem as ferramentas para liquidá-lo enquanto comentarista. Para mim, tanto faz se você escreve muito ou pouco. Alegro-me, antes de qualquer coisa, com a presença. Se seu comentário precisar ser longo, paciência. Os meus também podem ser longos, dependendo do caso. Só não seja mala. Escrever um monte de comentários só para aparecer em primeiro lugar no ranking dos comentaristas é uma cretinice insuportável. Mas se você é um comentador assíduo, logicamente estará no ranking e às vezes em primeiro. O objetivo desse plugin é incentivar seu comentário e não encher o saco do autor e dos outros leitores com um monte de palavras sem nexo. Talvez você não goste do que estou dizendo, mas não permita que minhas palavras alterem seu humor. Nesse caso, você estaria entregando as chaves do controle de seu humor, talvez de sua vida, a mim.

Para encerrar, meu amigo me ligou, dia desses e disse: “Luiz, você não vai acreditar, essa é a terceira namorada que arrumo, depois do divórcio, após poucas semanas e algum sexo, ela já começou a querer assumir o controle da minha vida.”

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10 thoughts on “Amor Equivocado

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  6. Lou

    Como diria o deputado, que se lixem. Ou como já ouvi, é melhor mandar lamber sabão (deve deixar o hálito bom).

    O fato das mulheres comentarem mais que os homens me parece o padrão dos blogs.

    Os cães ladram, mas a caravana sempre vai em frente.

    Tem razão. O desagravo me pareceu necessário. Mas é só, vamos caminhar.

  7. Ai do homem que deixa a mulher ou alguém controlar a sua vida…

    (confesso aquela linda foto da menina magoada não me sai da cabeça… eheheheh)

    Também será infeliz aquele que procurar controlar sua mulher. Quanto a foto, ela encerra uma armadilha conhecida. Aí daquele que consolar ou socorrer a menina. 🙂

  8. Rio-me. Não consigo reprimir o riso ao pensar que existe algum coitado que seja teu discípulo…
    Vê se dá um beijinho no dedinho da moça, tadinha! Não percebeu que ela precisa de ajuda?
    Controle… ah, o controle, o poder! Como estraga as coisas!!! Relações pessoais, sociais, políticas, econômicas, culturais. Qualquer uma pode e é estragada pelo desejo de controle.
    Pior que, muitas vezes, nós mesmos é que assumimos o papel de “controlados”, “oprimidos”, “vítimas”.
    Como diz o filme, “Cada um vive como quer”. Inclusive na blogosfera…
    Mas, deixa pra lá e vamo que vamo…

    E a maioria das relações resumem-se em jogos de poder, competições entre os envolvidos, etc… Um beijinho nesse dedinho custaria caríssimo ao imprudente socorrista. 🙂

  9. Gostei do texto.

    Pena que a fundamentação acerca do amor equivocado não foi completa, afinal, vivo tendo os meus, e gostaria de aprender mais sobre eles.

    Abraço

    Bom, em um blog não dá para escrever muito. Mas deixei a dica dol livro do Fromm, espero vê-lo na estante de sua biblioteca quando formos visitá-lo em Cuiabá. Também citei o Powell, outro que não pode faltar. O tema é: Não tente mudar ninguém, além de você mesmo. Abraço.

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