A Gruta do Lou

Amor e fé

 

Entre quase dois mil posts, há um onde tentei refletir sobre os limites e falácias do amor.

Em meus dias de vida já vivida, ouvi falar muito sobre amor, desde onde posso me lembrar. Geralmente o amor aparece como o melhor remédio para tudo, no topo da lista. Nem Deus ou o filho subversivo dele conseguem superar o tal do amor, geralmente. Isso me intrigou muito, primeiro porque foram raras as vezes quando me deparei com o ele para valer e, depois, todas as vezes as quais procurei apertar as pessoas a respeito do amor, sobretudo, as sábias, não obtive resposta satisfatória.

Comecei a buscar o amor na literatura e achei alguns livrinhos muito interessantes. A “Arte de Amar” de Eric Fromm é o grande destaque, para mim. Fiquei feliz quando o Flávio Gikovate declarou ser este o melhor livro já lido por ele. Não foi a minha melhor leitura, mas está entre as melhores, seguramente. “Os Quatro amores de C. S. Lewis” é muito bom e me ensinou a variedade na unidade.

O amor se subdivide, e isso explica muitas coisas. De fato há o amor sexual (eros), o amor amizade (philia), o amor paternal (storge, afeição)  e o amor divino (ágape). Às vezes eles se misturam, com possibilidade até de passar da conta. A paixão é uma das subdivisões do amor eros, uma das confusões mais comuns cometidas pelas pessoas. “Não te amo mais”, quando a frase certa seria “não te desejo mais”. Há muitas uniões estáveis seguras nas mãos do amor amigo.

Seguramente, amor é sentimento, o maior e mais contundente de todos. Desconfio que Deus desejava uma vida de amor para nós, de várias formas. Caridade é uma subdivisão menor do amor ágape e nós podemos senti-lo, quando não estamos embriagados demais por outros amores.

Certa ocasião, fui convidado para coordenar estudos sob o tema “Amor”, lá na Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo (uma possível conspiraçãozinha da Talita e Antônio Augusto Ribeiro mais o Zenon Lotufo Jr.), com duração de quatro domingos. A turma era enorme, cinco pessoas e uma desistiu no meio do caminho. Li e reli vários livros sobre o Amor, além dos dois já citados. Decorei falas de Romeu e Julieta e Hamlet para citar durante os encontros. Sempre achei legal fazer esse exercício, sobretudo com os textos de Shakespeare, além de muito charmoso.

“Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que pode sonhar tua vã filosofia.”*¹

O amor foi, cada vez mais, sendo citado como solução para tudo. “Só o amor constrói”; “O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males”. Sem falar na lindíssima poesia atribuída ao apóstolo Paulo, em Primeira aos Coríntios 13, embora muitos jurem ser a letra de uma música famosa de Renato Russo, apenas. E devo ter embarcado nessa. Foi assim até ver o corpo de meu filho sem vida, nu, coberto com um lençol na UTI de um hospital infame.

O amor só deu até ali. A partir de então, o amor deixou de ser solução. Ele não me respondeu porque Deus permitiu aquilo, se havia mesmo outro plano de vida dali em diante, se seria algo mais legal para ele, como conformar o coração da mãe dele a minha esposa, dos irmãos dele e de todas as pessoas que o amavam, sem falar em minha própria dor. Descobri que o amor era completamente ignorante após a morte. Shakespeare sabia disso e tentou dizê-lo a Horácio através de Hamlet.

“Ora a fé é a certeza de que haveremos de receber, o que esperamos e a prova daquilo que não podemos ver, ainda.”*²

Nos últimos dias, em um daqueles surtos inesperados de tristeza que me acometem, desde então, acompanhados de choro, lágrimas e indignação, sempre desaguando em profunda angústia, até a linha divisória entre a alma e o espírito, peguei-me declamando em voz alta o fim do amor. Como um raio sem luz e um estrondo sem som, lembrei do texto de Hebreus e li a conclusão óbvia: o amor, um sentimento humano, nobre e portentoso, será seguido pela fé, a nossa ponte para a eternidade onde conheceremos outros sentimentos, indescritíveis agora, mas muitíssimos mais completos em relação aos que agora conhecemos. Então será amor e fé, eternamente.

 

Notas:

    *¹: In Hamlet de Willian Shakespeare

    *2: In Hebreus, cap. 11 v. 1 BKJ Atualizada. A palavra “ainda” no fim da frase é uma sugestão minha para os editores acrescentarem em edições subsequentes.

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