A Gruta do Lou

Adotar

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Em meu currículo consta uma vasta experiência no trabalho com crianças. Entre outras coisas, dirigi duas creches municipais em São Paulo, trabalhei em abrigo (orfanato cujo nome foi modificado pela tirania do corpo de psicólogos e psiquiatras cristãos ou não), pré-escola, escolas, recuperação de crianças adictas e vai por aí.

Essa história em favor das crianças e adolescentes levou-me a algumas conclusões e sentimentos radicais. Talvez você não goste do que lerá aqui. É só a minha opinião. Tudo que peço é alguma reflexão a respeito.

Crianças não deveriam viver em creches, abrigos e escolas, jamais. Isso, sem falar nas prisões infanto-juvenis e nos hospitais. Todas essas excrescências idealizadas pela mente humana deturpada e doentia são inaceitáveis. Lugar de criança é ao lado de seus pais e irmãos. Ao estado, nunca poderia ser facultado o direito de retirar o pátrio poder a quem quer que fosse.

Sei muito bem de exceções nas quais pais não possuem condições morais para manter seus filhos. Nesses casos e quando não houver a morte dos dois progenitores os avós ou parentes próximos dispostos, a solução mais adequada será um novo lar paterno, através da adoção. Insisto, as opções deveriam começar pelos avôs, irmãos mais velhos, tios, parentes e, só então, esgotadas essas primeiras, verificar-se-iam as possibilidades de terceiros adotarem.

A decisão, nesses casos, deveria caber a um conselho comunitário, do qual participassem representantes das principais setores da sociedade (igreja, estado, mídia, educação) mais um representante da família original (o primeiro adulto idôneo possível), com voto superior a todos os outros. A família pleiteante participaria, sem direito a voto.

A melhor educação possível a uma criança cujo destino levou seus pais biológicos está no lar. Quando houver amor e valores corretos, nada substituirá a experiência e a vida doméstica. Nenhuma instituição doará mais segurança, competência e carinho do que o seio familiar.

Nesse universo, a mãe presente é indispensável. Não foram poucas as vezes em que manifestei sinceramente minha crença em relação à liberação da mulher. Quando a mulher desejar viver sua vida, seja para o trabalho ou qualquer outra atividade fora do lar e da família, caberá a ela abrir mão do papel maternal. Filhos não permitem ausência materna, parcial e muito menos total. O pai e os irmãos são indispensáveis, mas seu papel é secundário em relação ao da mãe, em termos da importância. O pai precisa trabalhar pelo sustento da família e o mercado precisa entender isso.

Uma criança adotada demandará esforço dobrado e nenhuma possibilidade de uma mãe dividida entre o cuidado da criança e qualquer outra atividade. A adoção jamais preencherá ou substituirá o lar original da criança. Nesse caso, a família adotiva sempre estará em desvantagem e precisará multiplicar esforços para suprir, sempre em parte, o que foi perdido pela criança.

Todos nós precisaríamos perguntar, vez ou outra, se não há uma criança necessitando de nosso lar. Mais ainda, toda família cristã bem estruturada deveria, por dever de consciência diante de Deus, estar inscrita nas listas de adoções. Nenhuma criança deveria ser internada nessas espeluncas sociais por aí, nem provisoriamente. A grande maioria dessas casas não passam de pretexto para certas pessoas obterem recursos às custas do sofrimento das crianças abandonadas deliberadamente ou compulsoriamente e que tiveram mais esse azar de cair nessas mãos, sejam elas públicas ou privadas.

Nós não adotamos nenhuma criança. Adotamos alguns jovens que viveram algum tempo em nossa casa, voluntariamente. Hoje, eles estão bem, embora lembrem de nós raramente, ou nunca, como foi o caso de uma jovem que chegou em casa com aneroxia nervosa e nos deixou curada, de corpo e alma. Mas isso tem importância relativa.

A adoção é uma experiência, quase sempre, dura para todas as partes. Não se iludam. Sem falar na questão estética. É triste, mas crianças negras, feinhas ou deficientes, dificilmente são adotadas, inclusive pela própria parentela. Conheci, de leve, o trabalho do Focolares (uma organização católica criada pela falecida irmã Chiara Lubish) onde, entre outras possibilidades, casais se dispõem a adotar crianças com sérios comprometimentos como com síndrome de Down, AIDs, doenças congênitas complexas, câncer, etc). Alguns chegam a adotar cinco crianças com esse histórico. Depois disso, ficou difícil reclamar do meu filho natural possuir um problema complexo.

Espero ter contribuído com a iniciativa de blogagem coletiva, tão relevante, que me foi passada pela Georgia.

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14 thoughts on “Adotar

  1. É Lou, concordo com vc que o primeiro passo para uma adocao no caso citado aqui por vc deveria ser para os parentes, mas pelo que andei lendo, isso nao é bem assim.
    Uma crianca adotada, dá o mesmo trabalho que uma crianca biológica, o que difere todas as coisas é o Amor;

    Lou, seu texto é muito pé no chao, exatamente como você é.

    Muito obrigada, valeu.

    Abracos

  2. Seria muito bom se tudo fosse como descreves, mas não é.
    Se os pais biológicos morrem ou simplesmente, rejeitam os filhos, nem sempre encontramos familiares de sangue que desejem essas crianças.
    O resultado, como tantas vezes temos visto aqui em Portugal, são crianças mal amadas e nada desejadas, a sofrerem junto de familias de sangue, mas que de amor, nada têm.
    Claro que também gostaria de ver todas as crianças num lar, numa familia. Assim como também penso que adoptar crianças com problemas, isso sim, é um gesto de amor, um gesto de nobreza de coração.
    O amor sem dúvida, é a grande chave para abrir o coração e alma.

    Você é uma autoridade nesse tema. O que estou dizendo já incluii o amor, pois não consigo conceber a adoção sem ele. Para a criança, idealmente, quanto mais próximo de seus laços familiares, melhor. Mas o que você diz é fundamental, sem dúvida.

  3. Oi, Lou!
    Gostei de ler suas reflexões so bre o assunto Adoção.
    Seria mesmo tão melhor que os familiares adotassem tais crianças, mas fazer a cabeça de gente, principalmente aqui no Brasil, tá difícil!
    Contei uma história muito pungente e linda lá no blog.
    Apareça por lá também.
    abraço carioca

    Visitei seu blog e li a história emocionante que você postou. Parabéns!

  4. Assino com você, e com todos que opinaram, mas eu não adoto não. Não tenho nenhuma competência pra ser mãe, aliás essa fala nem é minha, é do meu próprio filho.

    A velha conspiração dos filhos contra os pais. A falácia se comprova, justamente, com essa capacidade de argumentar e nos incomodar. Manda ele catar coquinho.

  5. Lou

    Me surpreende que os comentários ainda não trazem as setas feministas.

    Só uma retificação : Síndrome de Down não é tecnicamente considerada um comprometimento sério e, por experiência própria, posso te dizer que não é mesmo.

    Mesmo assim, ao invés de adotar, muitas famílias preferem abortar (seria o aborto a antítese da adoção?? acho que dá um tema interessante)

    Fiz as correções. Você estava certíssimo. É difícil abordar essas questões, principalmente, quando isso afeta pressupostos feministas ou machistas. Gosto da Adélia Prado por N razões, sobretudo, pela defesa coerente e elevada que ela faz do papel da mulher. A raça humana já esteve ameaçada em várias oportunidades da história das civilizações, justamente por causa da mulher abandonar a maternidade. Elas são insubistituíveis nesse quesito. Estou aguardando o seu post sobre o tema mencionado.

  6. Acho que você tem razão e não deveria haver crianças sem família. Infelizmente, a realidade é outra. Também acho que o Estado não é competente, mas ele tem de suprir a família e os pais quando eles não existem, faz parte de suas funções.
    Se o mundo e as pessoas fossem outras, teríamos uma situação totalmente diferente.

    Mais um sintoma da inoperância da Igreja. Deixamos o sal se tornar insípido.

  7. Ah Lou, recentemente pensei em adotar uma criança, adolescente, adulto…sei lá tanta gente precisando de ajuda, mas percebi que quem precisa de adoção sou eu. Egoismo à parte, concordo e assino embaixo. Se eu tivesse estrutura, certamente adotaria.
    Beijos querido.

    Pensar nisso é grande coisa. Você pode influenciar seus descendentes com essa idéias subversivas. É bom também.

  8. Olha, Lou,já que você falou em catar coquinho, e já que eu estou com a macaca, vou complementar: como se não bastasse eu ter uma perturbadora barriga que engendra (engendrava, graças a Deus), ainda tenho que conviver com o barulho dos que querem que eu continue a engendrar, dessa vez no âmbito social. Coquinhos pra todos vocês.

    Respeito o direito que todos têm de ser contra ou a favor do que quiserem, inclusive e muito contra mim, que não sou mesmo para ser levada a sério.

    Mas daí a querer que eu engendre filhos adotivos com as consequentes perturbações e angústias e medos e culpas novamente? inseguranças a curto médio e longo prazo? a beleza da maternidade é papo de homens, pra fazer a gente se convencer que é artisticamente belo parir, criar, cuidar, pra fazer a gente se conformar com a dura rotina.

    Tomar conta de filhos é um saco. Então a gente faz poesia, tira fotos, faz albuns, e ama também, porque não dá pra deixar de amar.

    Mas eu ainda acredito que o famoso amor materno é fruto de uma inculcação machista, que colocaram na cabeça da gente.

    Pronto, falei. Me sinto mais leve, ora pois.

    Bom, Deus avisou que as mulheres sofreriam as dores do parto, por causa daquela indiscrição de Eva, corroborada por Adão. O que elas não entenderam é que o Deus todo poderoso não estava falando só daquela dores do nascimento, mas para Ele, parto era a vida toda dos infelizes. Para os homens ele sentenciou o trabalho duro a vida inteira e nós não entendemos que a perversidade seria não disponivilizar a ferramenta para cumprirmos nossa pena. Em outras palavras, o Bom Velhinho ficou muito bravo com aquilo.

  9. Lou ,quando vc menciona que crianças não deveriam estar em instituições tendo governo como seus responsáveis eu em parte concordo com vc , pq o mesmo não está tendo estrutura alguma para criação dessas crianças e não dá posteriormente pespectiva alguma de quando essas crianças fazem a maior idade de viver nessa selva d pedra.
    Porém, infelizmente muitas são negligênciadas por seus pais indo parar na rua e aí nem preciso te dizer o q se tornam.
    Vc fala da comunidade resolver esses problemas, me desculpe, mas nunca vi nada q a sociedade faça junto com mídia , igreja etc .. darem certo.
    Opinião minha, acho sim q a adoção deveria ser mais simples sem a complexidade toda q fazem , certo que não deva ser feita de forma irresponsável .
    E pq não darem a oportunidade d pessoas que desejam adotar fiquem com a criança por um prazo d no minimo 1 ano, para ver se a criança e os futuros pais se adeqüam. E caso a resposta seja favorável tornem permanente.
    Vc fala que crianças adotadas teriam q ter tratamento diferenciado, discordo acho que a mãe não precisa necessáriamente deixar de ter sua vida normal para poder cria uma criança.
    Pq em um lar o que tem que predominar é o carinho e amor.
    E para que haja isso ,a mãe não precisa abrir mão de seu emprego ou outra atividade q faça.
    O restante do texto concordo plenamente com vc rsrs.
    Acho sempre seus textos maravilhosos , mesmo tendo pontos d discordância.
    Sendo sempre bem centrados.. Por isso estou sempre entrando no blog para ver qual é o o novo tema . beijoss rsrs

    Na verdade, acredito que qualquer filho, biológico ou adotado, deva ser criado e educado em ambiente familiar. As crianças que ganham as ruas, o fazem pelo descaso de mães e pais. Ainda bem que você não concorda comigo em tudo, isso seria muito chato. Agradeço e recebo humildemente os elogios, a parte de seu comentário que gostei mais, não sei por que. 🙂

  10. Olá!
    mt bom ouvir algo que vem de alguém com experiência na área. As coisas ficam mais, digamos, práticas. Finalmente nao chorei num post dessa blogagem, mas parei realmente pra pensar.

    Lembrei do livro O cacador de pipas, e da espelunca em que o filho do Hassan é colocado. É claro que aquilo foi talvez, aumentado, afinal é um livro que apesar de baseado em fato reais, fictício. Acontece que há mts lugares como aquela creche.

    Todo lugar longe de casa, longe de uma família, pra uma crianca, é um lugar sombrio e frio.

    mt bom seu post. Obrigada pela luz que lancou a mts.

    Depois de um tempo trabalhando em uma creche, você acaba desejando ver as crianças em seus lares. Lares adotivos para crianças abandonadas é remendo, mas vira a melhor opção para eles, se bem que, incomparavelmente inferior à familia original. Obrigado pela visita e pelas palavras.

  11. “Depois de um tempo trabalhando em uma creche, você acaba desejando ver as crianças em seus lares. Lares adotivos para crianças abandonadas é remendo, mas vira a melhor opção para eles, se bem que, incomparavelmente inferior à familia original.” -*** Lou, um choque de verdade consubstanciado na realidade de quem viu, ouviu, sentiu e lidou no dia a dia do tema em discussão nesta blogagem. Um depoimento que provoca sentimentos variados, é a assim a humanidade, nem tudo é sonho, muito menos flores, nem tudo é querer, mas o amor pode mais. Mesmo o que pode ser deve ser perseguido para ser melhor.
    Obrigado pela participação nesta maratona. Abraço

    Além de tentar contribuir humildemente, foi o maior prazer. Eu é que agradeço a oportunidade.

  12. Olá,
    não conhecia seu blog e gostei muito do que li.
    Será um prazer conhecer vcs pessoalmente e trocar experiências.
    Beijos

    Sem dúvida, todos ganharemos muito com esse encontro. Obrigado pela visita.

  13. Ola gente, eu acabei de perder minha bebe com sindrome de down, ela era cardiopata e fez a cirurgia mas infelizmente pegou infecção hospitalar e faleceu no dia 16/11/2008.
    Agora estou doida para adotar uma criança com down,não para substituir a minha e sim porque elas são maravilhosas e muito lindas,mas infelizmente tudo é muito burocrático no Brasil.
    Vou correr atras de realizar meu sonho…sei q valerá a pena…bjos a todos

    E terá as nossas orações por você. Obrigado pela visita.

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