A Gruta do Lou

Abbey Road, Something or Like a Virgen

Abbey Road
Abbey Road


Escrever sobre música sem música é como namoro sem beijos ou macarrão sem queijos, so…

 

No momento em que ouço “Something”, gravação original dos Beatles me ocorre não ter escrito muitos posts sobre música. Isso é estranho porque, apesar de não ter seguido carreira, a música sempre esteve a meu lado.

Nos tempos de Ginásio Vocacional e depois na Igreja Cristo Salva fui selecionado compulsoriamente para fazer parte dos coros e foram vários. Cheguei até a ser regido pelo competente Jonas Christensen, que era nosso professor de Educação Musical. Desde a adolescência vinha aprendendo música. Minha primeira e eterna professora foi a D. Olga Corsi (piano, violão e canto). Depois fui para o conservatório, estudar piano. A grande verdade é que eu era suficientemente vagabundo para não ir adiante. Música é coisa para doidos persistentes e trabalhadores capazes de dedicar as horas mais sagradas no exercício dos instrumentos, inclusive das cordas vocais.

Engraçado é que para jogar futebol, handebol, nadar e namorar não me dava preguiça. Nas poucas vezes quando troquei essas atividades pela música, me arrependi. No final da década de sessenta, início da seguinte, formamos uma banda e às tantas fomos tocar no interior, Guaratinguetá, se não me engano, mais de uma vez. Para tanto, precisei abdicar das outras atividades. Resultado, quando o gato sai, os ratos fazem a festa. Bom, se os ratos fossem minimamente fiéis e tivessem algum caráter, não o fariam, se não me engano.

Um dos meus maiores defeitos, denominado pelos analistas transacionais como “impulsores negativos” é ser perfeccionista. Gente assim ouve vozes, vozes que dizem coisas do tipo: “Seja perfeito”, dia e noite. Nada será mais arrasador de grandes promessas, seja em que campo for. Para ser perfeito na música, Like a Virgen, Madonna, Eric Clapton ou Pavorotti foram chifrados, perderam filhos, cônjuges, final da Copa do Mundo, muita grana, etc., fora o tempo e a vida. Mas eles e milhares de outros músicos e músicas excelentes merecem minha maior admiração, pela excelência com com a qual musicam e, sobretudo, pela incompreensível dedicação.

Para mim, e me perdoem os puritanos, esse negócio de dom é coisa para pentecostal inocente ou batista enrustido, músico bom precisa ralar. Como não fui e jamais em seria capaz de trocar atividades tão ou mais salutares em relação à música, até o ponto de me considerar algo virtuose (quando as pessoas dizem que você tem talento musical, sem dó nem piedade), e isso seria o mínimo aceitável para mim, resolvi abandonar a música, pelo lado da execução e me manter como mero ouvinte, indefinidamente. Sem dúvida um ato de coragem e beneficio indizível aos ouvidos alheios. Uma coisa posso garantir, sem medo de errar, poucos (ou nenhum) fizeram música com mais má vontade do que eu. Aliás, nem sei por que fiz tanto.

No fim, vejam quanta bobagem se pode escrever sobre a música, enquanto ouvimos a velha e boa música dos Beatles, outros que deram muito para conseguir o que conseguiram, inclusive tempo para desfrutar como estou desfrutando agora, do que fizeram de bom. E isso não é alguma coisa ou Something?

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