A Gruta do Lou

Abacates com piano

Minha fruta preferida é o abacate. Esses dias o Volney postou com uma bela foto dessa iguaria natural. Sei porque pretendo ser persistente com ele. Se estou aqui, devo-lhe essa.

Menino ainda, passava férias de inverno na casa de meu avô, em São José dos Campos. Na casa dele havia uma abacateiro no quintal. Ele fazia todo um ritual para apanhar os abacates e depois prepará-los. Eu gosto de amassar a polpa da fruta, peneirar, misturar açúcar, limão e pronto. Também, aprecio batido com leite. Meu avô ficava todo orgulhoso de me ver comendo a fruta. Embora, houvesse muitas pessoas na casa dele, ninguém, além dele, gostava de abacates.

Quando viajei à Aquidauana, para fazer trabalho de divulgação da Open Doors, fui hospedado em uma das salas da escola dominical da Igreja. No local, morava a zeladora e sua filha de criação. Ela era a organista titular lá. Logo que cheguei, a bondosa senhora, cujo nome era Melinha, me perguntou qual era a minha fruta preferida e como eu gostava de comê-la. Enquanto estive hospedado no conforto da classe, em um colchonete e com direito a banheiro fora, ganhei um bom copo de leite com abacate diário.

D. Melinha me contou uma história interessante sobre o talento da filha nos teclados. A menina mostrou ter jeito logo cedo. Queria aprender a tocar, mas não dispunha do instrumento, em casa, para praticar. A boa senhora juntou moedas durante anos. Nesse tempo, a filha praticava na casa de uma vizinha, pois não lhe permitiam fazê-lo no piano sagrado da Igreja. Isso durou até a mãe da pianista completar o total necessário para a aquisição.

Quando a Rádio América de São Paulo incendiou-se, meu pai pediu autorização para guardar o velho piano que estava no meio da rua, salvo das chamas. Autorizado, alugou um caminhão e levou-o para casa. Lixou e envernizou o móvel e chamou um técnico da Casa Manon para restaurar o instrumento. Algumas cordas e teclas foram substituídas e depois veio a cuidadosa e trabalhosa afinação. Assisti tudo, bem de perto. Minha mãe me matriculou no conservatório e comecei o duro aprendizado. Além das aulas práticas e de teoria na escola, praticava no piano, em casa.

Belo dia, um cara chamado Salomão Hesper entrou na sala do meu pai, no que sobrou do prédio da rádio e, lá pelas tantas, perguntou sobre o paradeiro do velho piano. Meu pai prontamente informou que estava em nossa casa guardado. O maldito não se fez de rogado e disse, secamente: “Então, traga ele para cá. Vou colocá-lo em minha sala para compor a decoração”. No dia seguinte, meu pai alugou um caminhão e levou o piano de volta. Fiquei com os olhos mareados e desisti de aprender a tocar piano.

Quando compramos abacate, dificilmente consigo comer, ainda que seja um pouco. Meus filhos adoram abacate. Às vezes, olho uma das paredes de nossa sala e me pego pensando como ficaria bem um piano ali. Chegamos a comprar um teclado de presente para o Thomas. Em um dos nossos tempos de penúria, o aparelho virou comida.

Algumas vezes, quando vou ao mercado, penso em comprar abacates. Geralmente, esqueço antes de chegar lá. Também gostaria de comprar um piano, mas minhas coleções de moedas não chegam a prosperar.

4 thoughts on “Abacates com piano

  1. Lou, você me fez voltar à infância… na casa da minha avó tinha um pé de abacate. e ela fazia vitamina sempre pra gente.
    vai uma dica (pra quando comprar abacate) – faça a vitamina com abacate, leite e biscoito de maizena! fica sensacional!!!
    quanto ao piano…
    beijos,
    alê

  2. Também lembro da vó Zizinha, tinha muitos pés de abacate (conde, manga, goiaba, banana, cana).

    Dizem que tem gente que come salada de abacate com pimenta-rosa, vai saber se é bom!
    O gosto deve ser diferente.

    Abraço

    Jr

  3. Pingback: Lou Mello

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