A Gruta do Lou

A Tétrica realidade da morte e das falsas interpretações paulinas

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obs: Foto alterada após manifestações violentas pelas ruas da Gruta.

“De todos os detalhes da narrativa, este não deve nos escapar: Adão nasceu homem feito. A peça de barro que o escultor anima com um sopro tem a conformação e o peso um homem adulto.

O inconcebível homem que não foi criança pisca e abre os olhos para o esplendor do mundo e a companhia de Deus, e por essa suficiente razão não terá como apreender um ou outro.”

Paulo Brabo

Peço a todos vocês que me desculpem por essa série sobre a morte. Juro que não é nenhuma compulsão ou fixação. Há anos que descobri esse negócio do medo da morte e isso me incomoda, principalmente devido ao horror que as pessoas tem em enfrentar a inevitabilidade desse ato final. Fico assustado em testemunhar as pessoas que têm, no máximo, mais uns cinco ou seis anos de vida, fazendo planos para viver cem ou mais. Pior é que isso chega a ser até motivo para a extorsão por certos vigaristas que aproveitam essa insanidade para empurrar todo tipo de bobagens para os velhinhos, de implantes dentários à vida eterna, passando por TV digital, Iphone, Karaoques, etc. Claro que os velhinhos mais sabidos compram tudo isso, em sessenta pagamentos, pouco antes de morrer, para deixar herança para os moleques.

Achei que nesses dias em que celebramos a morte, se bem que, inexplicavelmente, o pranto suplante a alegria, fosse uma boa idéia escrever sobre a dama da noite.

Mas meu propósito aqui é aproveitar esse hiato entre a crucificação, enterro e a ressurreição do Galileu amanhã, para fazer um comentário a esse texto interessante e provocador do Brabo, aí acima. Embora a bíblia insista que o Cristo Nazareno ressuscitou ao terceiro dia, nós resolvemos ressuscitá-lo no segundo e está acabado.

São os fenômenos da narrativa que tanto influenciam o Brabo, impulsionado pelo Norbert Elias, e faz muito bem. O Adiron (que pilota o incomparável blog “mens insana in cor sano”) me cutucou em seu último comentário, coisa que muito aprecio, pois detesto aqueles comentários que costumo fazer nos blogs alheios, do tipo: olha passei por aqui, um beijão; deixando o coitado do autor, que teve o maior trabalhão para escrever alguma coisa relevante, sem saber se li ou não e, pior, imaginando que esteja evitando dizer-lhe algo como: seu texto está uma merd (em francês é mais bonitinho). Claro que faço isso de forma absolutamente egoísta, posto que a justificativa seria alguma razão pessoal para não comentar direito.

Outra evidência via narrativa bíblica, nesse caso no Novo Testamento, é que Paulo (o apóstolo) escreveu um monte de coisas sem a menor noção dos evangelhos. Sim, porque todos foram escritos ou encontrados depois que ele já havia passado dessa para melhor e seu corpo jazia espalhado em partes por vários cantos das praças bíblicas. Você já se deu conta disso? Nós dois sabemos muito mais sobre os evangelhos do que o apóstolo da salvação perdida sabia, sim porque ele acreditava nessa bobagem. Coitado! Tenho certeza que muito do que ele escreveu teria soluções muito menos farisaicas se ele os tivesse lido. Não é à toa que Martinho Lutero não queria nem ouvir falar nas cartas de Paulo e suas elocubrações sobre trabalhar pela salvação, santificação e justificação, ignorando que a morte é o anti-vírus celetial para entrarmos na próxima vida, se é que isso existe . Embora a Igreja Luterana jure, de pés juntos, que o problema do mártir da reforma era mais com Thiago, Hebreus e Apocalípse. Longe deles a idéia da manter uma igreja sem as idéias tirânicas do décimo terceiro apóstolo, como ensina o Watchman Nee, naquele horrendo livro “Autoridade Espiritual”. Não sei qual foi o imbecil que colocou Lutero e Calvino no mesmo saco.

Plagiando o Brabo, diria que o inconcebível cristão que nunca leu os evangelhos pisca e abre os olhos para o esplendor do mundo salvo incondicionalmente e da companhia de Deus sem julgamentos ou condenações e por essa razão suficiente não terá como aprender um e outro.

Interessante notar na narrativa que Jesus, aquele que ousou dizer que ele e o Pai eram um, fez um tremendo esforço para amenizar e endireitar a compreensão sobre a morte e suas conseqüências, vivendo com um plano pré estabelecido para seu ocaso fatal e chegando a irritar-se quando os imbecis necessários, seus discípulos, argumentaram com afirmações positivas do tipo: não Senhor, isso jamais lhe sucederá. Só se Paulo estava dizendo que todas as coisas contribuem para o bem dos que amam a Deus pensando na morte. Mas, sobre isso, não dispomos de evidências. Acho que ele estava planejando seriamente em ficar para semente e que não queria acreditar quando, já alado, viu sua cabeça separada de seu corpo. Inclusive, não há relato algum de que o apóstolo, que nunca foi discípulo, tenha ressuscitado.

Mas, volto a insistir, para mim Paulo foi um cara muito legal, tirando aquela parte da perseguição e entrega de cristãos para virarem comida de leões e tigres nas arenas da vida. Quem gostava muito dele era Marcos e a mãe do garoto. Agora, nem me pergunte como fica a inerrância bíblica se houver um mínimo de razão nessas minhas loucuras. Acho que isso é assunto para os professores de teologia sistemática resolverem, desde que não me excomunguem por essas querelas. 🙂

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4 thoughts on “A Tétrica realidade da morte e das falsas interpretações paulinas

  1. Ah! Meu irmão!
    Suas palestras sobre a morte são muito melhores que os filmes do sem graça do Woody Allen que você adora e consegue rir de fazer a gente rir de você rindo. Pelo menos essas palestras sobre a morte são muito engraçadas, especialmente com o incômodo que elas produzem na platéia, além de trazerem forte e denso conteúdo bíblico e teológico. Você devia gravá-las em vídeo, pois esses textos sobre a morte ditos com aquelas caras que só você é capaz de fazer são de morte. 🙂

  2. Apesar de professor de TS, não vou excomungá-lo…hahahaha….não faz parte do meu job description.

    Imagine se a gente supor que o sofrimento e morte de Cristo não contribuíram para o Seu e o nosso bem… Mais dor do que aquela não imagino ter existido. E se existia alguém que amava e era amado pelo Pai…era esse mesmo.

    E, apesar de suas imprecações, o livro que mais contribuiu para a reforma do nosso amigo o monge Martinho, foi uma certa carta escrita ao Gálatas que mostrava a besteira de se achar que a salvação vem por “Cristo+alguma outra coisa qualquer”.

    Abraços sistemáticos

  3. Fábio
    Puxa que coincidência você lecionar, justamente, TS. Ainda bem que a excomunhão não é tarefa sua. Ufa! 🙂
    Mas concordo com você, a carta aos Galatas ajudou Lutero. Entretanto não daria o crédito para Paulo precipitadamente, uma vez que ele pode ter usado um amanuense rebelde, nesse caso. Sempre desconfiei daquela história de “Cristo em vós a esperança da Glória” ou repetir a frase “O justo viverá pela fé” e o principal, aquela maravilhosa definição do “Fruto do Espírito é o amor”. Seguramente, não tem a cara do apóstolo inventado por Barnabé ou melhor, Josefo. Certo?

  4. Aí,Lou,o khalil diz “que suas palestras sobre a morte são melhores que aqueles filmes sem graça do Woody Allen que você adora rir.”
    Não disse que você gosta de rir de coisa que não tem graça?hihihi.

    Quanto à sra.morte não tenho medo dela,pois morremos uma pitadinha a cada dia,na lida,na vida na seara de Jesus…

    Quanto à Teologia Sistemática,vocês que são Teólogos que se entendam.

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