A Gruta do Lou

A Síndrome do Irmão do Filho Pródigo – A remissão

Rembrandt_Harmensz_van_Rijn_-_Return_of_the_Prodigal_Son“A volta do filho pródigo” de Rembrandt

Nos tempos com o Zenon, falamos muitas vezes sobre a síndrome do irmão do filho pródigo. Brenan Manning cita a mesma coisa e com as mesmas palavras, no livro Evangelho Maltrapilho, e os dois nunca se encontraram. Trata-se daquele cara que está sempre dizendo: “Mas eu fiz tudo certo e você não mandou matar o novilho cevado para mim”.

Há aqueles que vivem dizendo a mesma coisa, preventivamente. “Olha como estou fazendo tudo certo, me santificando pela leitura diária da Bíblia, pela prática constante da oração, não falando nomes feios e sem fumar ou beber.” O Pai ainda nem recebeu os pródigos de volta e eles já estão chiando.

A Igreja costuma ser um lugar repleto de irmãos do filho pródigo e da ausência de filhos pródigos. Ela não gosta de filhos pródigos e só os recebe sob a promessa de vê-los transformados em irmãos do filho pródigo.

Os filhos pródigos não são recebidos com um abraço caloroso e apaixonado, com o anel, roupas novas e calçados, sem falar na festa com direito a novilho. Ao contrário, segundo as melhores cartilhas ortodoxas, eles recebem uma lista dos itens imprescindíveis na vida de um fiel irmão do filho pródigo, o santo.

E mais, a partir daí, sempre que houver necessidade de alguém para qualquer função mais nobre, o filho pródigo não será escolhido, pois não queremos alguém que estava morto e voltou à vida. Para cargos nobres só aceitamos os nobres irmãos do filho pródigo, que nunca fumaram, nunca beberam, não falam palavrões, leem a bíblia e oram diariamente. Os filhos pródigos podem ajudar na limpeza, no máximo.

Desde muito jovem, iniciei minhas andanças pelo mundo dos negócios. Já relatei como não fui lá muito bem sucedido na empresa de engraxar e lavar bicicletas, minha primeira tentativa no mundo da livre iniciativa. Mas essa está longe de ser minha única experiência. Fiz inúmeras outras incursões. Sempre metendo os pés pelas mãos. Incrível minha incapacidade para comprar, vender, administrar, propagar, planejar, etc… De A a Z cometia todos os erros. Não tinha noções de contabilidade, administração, marketing, etc…

Não fui educado em uma família judia. Já revelei que fui educado por palhaços e mágicos profissionais. Então, ao invés de me deixarem trabalhar no circo, para o que, estava plenamente apto, resolveram que eu devia ser doutor e me mandaram para a escola. Resultado, não aprendi nada sobre finanças, a não ser, que esta atividade ocupa noventa por cento de nossas vidas.

Assim, tive a brilhante ideia de criar um curso, o “Finanças OK” onde aliando as técnicas do que não deve ser feito e da Análise Transacional, pretendia preparar os jovens para estarem aptos a enfrentar a maior tarefa da vida: as finanças.

Entretanto, ouvi de todos os lados os sonoros “nãos”. Afinal você não é um cara bem sucedido nessa área (leia-se: um ortodoxo irmão do Filho Pródigo). Você cometeu todos os pecados. Gastou dinheiro com as meretrizes, o jogo e na farra. Depois teve a cara de pau de voltar para a Igreja e agora quer ser professor. Está ficando louco. Além do mais, você ainda se comporta como um filho pródigo. Toma cerveja, gosta de dançar, fala uns nomes feios e não lê a Bíblia todo dia. Nem sabemos se ainda ora. Queremos ensinar aos nossos filhos como fazer e não o contrário. Melhor deixa-los na escola. Lá eles aprenderão o que é preciso (sic).

Nunca recebi um abraço apaixonado na Igreja, como aquele que a Dedé me dá quando volto de viagem. Muito menos anel, roupas e festa. Sei do que estou falando. Mas parece que não me acham apto a cuidar dos outros filhos pródigos que igualmente sofrem nas mãos dos irmãos deles.

Claro que o Pai nos ampara e nos dá esses presentes. Não apenas uma vez, mas todas as vezes que retornamos à sua casa (a verdadeira). Os irmãos dos filhos pródigos (ortodoxos) não devem ser levados a sério.

Agora estou bolando um novo curso para ministrar nas Igrejas. Chama-se: “Cristãos OK”. Tenho certeza que esse vai emplacar.

Ass. Um Filho Pródigo.

posted by Lou at 11:25 AM

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6 thoughts on “A Síndrome do Irmão do Filho Pródigo – A remissão

  1. Olá Lou, gostei muito do teu artigo e é engraçado que tenho pensado muito nessa parábola… foi curioso vê-la aqui…

    É… concordo inteiramente contigo. Nós, Igreja de Cristo, somos mais como o irmão bonzinho que reclama do que como o Pai que recebe os filhos pródigos de braços abertos…

    como se nós não fôssemos tb filhos pródigos… SOMOS, TODOS NÓS! Pena que não consigamos tantas vezes reflectir a imagem do Pai, do que Ele faria…

    Uma das coisas que mudou mais a minha vida cristã foi entender que eu não sou boa, não pratico coisas boas, nem posso dar frutos pelo meu bom comportamento…

    GRAÇA. Esta palavra diz tudo… e faz muita falta nas nossas igrejas, porque afinal somos todos iguais… não há filhos bons…

    Há filhos revestidos de Graça.

    Um abraço!

    By Paula, at 8/28/2006 12:39 PM

  2. Não seria o caso, assim, como filho pródigo, de o senhor começar a pensar na sua verdadeira volta a casa? Digo, se teus educadores eram palhaços profissionais mesmo. Acho que na casa certa encontrarias muito mais alegria e talvez nenhuma critíca leviana.
    Eu conheço verdadeiros homens de Deus, justos, amigos, honestos, sensíveis aos mandamentos do Pai, que é alegre quando encontra os filhos em casa.
    Como tu, caro Lou, também espalham por onde podem a existência de Deus.

    By Lux Luxo, at 8/28/2006 2:31 PM

  3. Acho muito legal esse título – que pode também ser O CRISTÃO OK.

    Com certeza dá muito pano pra manga e várias e várias aulas.

    Gostei!

    By Volney Faustini, at 8/30/2006 11:47 AM

  4. Pingback: Lou Mello
  5. Caro Lou, seu texto contém um fundo filosófico sensacional!
    Não pude deixar de atentar ao fato de que na volta do filho pródigo, o “irmão do filho pródigo” deixou seu posto para ser também filho pródigo. Faltou com indugência, piedade e compaixão. Deu um perfeito exemplo de orgulho, rancor e inveja. Afinal, quem é mais pródigo, o filho que não sabe lidar com os bens materiais, ou o que não sabe lidar com suas imperfeições?
    As pessoas podem nos exigir a suposta perfeição do irmão do filho pródigo, mas não nos esqueçamos que ela assim o faz porque não é capaz de lidar com as iniquidades que o irmão do filho pródigo também apresentou.
    Não nos esqueçamos, na hora da nossa prestação de contas, a dilapidação do nosso patrimônio deve pesar em muito menor escala que a nossa falta de esforço aceitar as pessoas como elas são e não negar-lhes a mão quando solicitarem.
    Fica com Deus.

    PS: Boa sorte no seu curso. E pode colocar a disciplina “Cristão da boca-pra-fora”, será muito necessária!

  6. No final das contas,não importa o que o irmão do filho pródigo pensa sobre ele ,o importante é que o pai o recebe.De igual maneira não importa o que a igreja pensa de nós,seremos recebidos pelo Pai Celestial.”Os sãos não precisam de médico,e sim os doentes”.Viva os filhos pródigos!

    Sou suspeito nessa história. Sempre me vejo na pele do irmão e não na do filho pródigo. Acho que sou meio mazoquista. Mas adoraria voltar depois de uma boa farra e encontrar meu pai com os braços estendidos. Pena, o velho não era o pai do filho pródigo, era só o pai do Lou.

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