A Gruta do Lou

A palavra “que” é um vírus de linguagem

15/07/2013

Vinho Corvo Duca di Salaparutta


Havia um professor no cursinho, cheio de graça, desses meio doidões. Ele nos mandava escrever um texto sobre algum tema exótico, com um mínimo de alguns trilhões de palavras em, digamos, trinta minutos. Esperava todo mundo acabar de em seguida passava a segunda missão: eliminar todos os “ques” dos nossos textos. Para nos motivar enquanto nos debatíamos com aquele exercício quase impossível, ele dizia frases motivacionais como: Quem conseguir escrever a redação no vestibular sem usar “esse verme”, leva dois pontos de saída.

Cara, não é nada fácil eliminar esse vírus. Até pode ser um pouco menos árduo quando tratar-se de texto escrito. Muito pior será conseguir expor um tema, digamos, durante meia hora, sem lançar mão desse micróbio. Eu diria: é tarefa impossível. Uma vez, gabei-me de ter escrito quatro laudas sem ele. Li e reli várias vezes, antes de entregar. Levei o rascunho para casa e mostrei para minha namorada, todo orgulhoso. Acredite se quiser, ela achou um maldito lá no meio. “Só pode ter se reproduzido espontaneamente” Tentei remediar, pifiamente e quase morri de vergonha.

Esse professor gabava-se por conseguir falar, seja qual fosse a situação, sem usar esse escroto termo uma única vez sequer. Achávamos aquilo pura arrogância do mestre e resolvemos planejar um evento onde o prato principal seria lograr, pelo menos, um deslize, levando-o a falar a palavra maldita. Resolvemos dar-lhe um fogo (maneira popular de dizer embebedar) com aquela finalidade maldosa. Enviamos um espião para descobrir a bebida predileta da vítima. O cara era esperto e sacou logo o nosso objetivo. Informou ser o vinho tinto francês ou italiano a sua bebida predileta. Você deve saber o preço dessas garrafinhas contendo 750 mls. Fizemos o orçamento, captamos os recursos com o pessoal da classe e compramos um dúzia de garrafas de Corvo Duca di Salaparuta.

Marcamos o dia, hora e lugar. A escolhida foi a casa de um dos colegas, uma mansão nos jardins, com piscina, mesa de snooker, som da pesada etc. O alvo chegou uns quarenta minutos atrasado, mas ele sabia o quanto isso não importava, afinal era o convidado de honra. Levou a namorada para o evento, por sinal, “una bella donna”. O resto dos participantes, mais o dobro em bicos já o aguardava, então. Ninguém iria perder aquilo por nada. As garrafas de Corvo estavam reservadas ao convidado de honra, os outros mortais podiam beber do resto, coisas boas alias.

Tão logo ele sentou-se em uma poltrona espetacular e escolhida a dedo, as primeiras taças de Corvo foram servidas. A namorada da estrela daquela noite não ingeria bebidas alcoólicas, foi o comunicado solene feito pelo próprio. Aquilo causou enorme desconfiança na galera, estaria ele planejando tomar as doze garrafas sozinho?

De fato o desenrolar da noite seguiu esse ritmo. O cara dava goles longos e vagarosos enquanto respondia cada pergunta e/ou provocação. Nada dele abrir a guarda, na verdade, em certos momento, abusava da confiança e tagarelava sem medo de trair-se, deixando escapar um daqueles horrorosos pronomes relativos tão nocivos aos nossos textos e exposições. Foi ali, naquela sala nosso batismo para o falar cavalheiresco e inteligente, insuflados por uma língua rica e prodiga em verbos, advérbios, sinônimos e antônimos, onde o uso daquela palavra, seja como um pronome relativo ou como conjunção é um acinte, verdadeiro vírus, o malware do idioma.

O impensável aconteceu, chegamos à ultima garrafa de todas a doze, e ao último gole. Inacreditável. Certamente ninguém ali, jamais, vira algo semelhante. Todos levantaram-se, também o professor e sua namorada. Ele ergueu a taça e propôs um brinde: “Brindemos à essa língua tão singular e ao mesmo tempo rica em substantivos, verbos, adjetivos, pronomes pessoais e impessoais onde nada há de ser relativo, a não ser os significados. Viva! E todos ergueram seus copos e responderam Viva! Em uníssono, com grande emoção, vimos a nossa língua pátria triunfar e o mestre sorver deliciosamente seu último trago. Durante doze garrafas, ele não cedeu nunca, nem à palavra maldita e muito menos ao poder suavemente embriagante daquele maravilhoso vinho, um verdadeiro néctar.

Para encerrar, agora sem mais vinho, apanhou um copo comum, colocou cerveja até a metade e convidou todos a fazer o mesmo, dizendo: “Se me permitem, desejo fazer dois últimos brindes: Primeiro ao excelente e impecável evento. Vocês estão de parabéns. Pena eu não ter deixado escapar aquela palavra nenhuma vez, até o ultimo gole do Corvo Duca di Salaparuta e, por fim, ao vinho: Que puta vinho esse!

E todos brindaram morrendo de rir. Ave mestre!

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