A Gruta do Lou

A Natureza da Mídia

Em 1992 o Dr. Milton Santos já sentia e antevia o terror causado pela mídia em relação a pseudos fenomemos ambientais.

A mediação interessada, tantas vezes interesseira, da mídia, conduz, não raro, à doutorização da linguagem, necessária para ampliar o seu crédito, e à falsidade do discurso, destinado a ensombrear  o entendimento. O discurso do meio ambiente é carregado dessas tintas, exagerando certos aspectos em detrimento de outros, mas, sobretudo, mutilando o conjunto.

O terrorismo da linguagem (H. Lefebvre, 1971, p, 56) leva a contra-verdades mediáticas, conforme nos ensina B. Kayser (1992). Este autor nos dá alguns exemplos, convidando-nos a duvidar do próprio fundamento de certos discursos das mídias. Por exemplo “Sobre o aquecimento da terra e o efeito estufa”. Pode-se estar certo de que, apesar do continuo crescimento do teor CO² da atmosfera, desde os começos da era industrial, o clima não conheceu aquecimento no século 20. As normais medidas entre 1951 e 1980, em relação à do período 1921 – 1950 mostram, ao contrário, uma baixa (não significativa) de – 0,3. De qualquer modo, a evolução é muito lenta, e dezenas de anos são necessários para que se registre uma mudança climática. O apocalipse anunciado – fusão de glaciares, elevação do nível do mar, etc. – não é seguramente para amanhã. Se é necessário lutar contra a poluição, a degradação do meio ambiente, devemos fazê-lo com os olhos abertos, com base em análises científicas e não nos limitando a gritar: “está pegando fogo”.

Se antes a natureza podia criar o medo, hoje é o medo que cria uma natureza mediática e falsa, uma parte da Natureza sendo apresentada como se fosse o todo.

O que, em nosso tempo, seja talvez o traço mais dramático, é o papel que passaram a obter, na vida quotidiana, o medo e a fantasia. Sempre houve épocas de medo. Mas esta é uma época de medo permanente e generalizado. A fantasia sempre provocou o espirito dos homens. Mas agora, industrializada, ela invade todos os momentos e todos os recantos da existência ao serviço do mercado e do poder e constitui, juntamente com o medo, um dado essencial de nosso modelo de vida.

O império universal do medo e o império universal da fantasia são criações sobrepostas. Já Freud (1920) escrevia que “A criação do domínio mental da fantasia tem reprodução na criação de “reservas” e “parques naturais” em lugares onde as incursões da agricultura, do trânsito ou da indústria ameaçam transformar… rapidamente a terra em alguma coisa irreconhecível”. A “reserva” se destina a manter o velho estado de coisas que foram lamentavelmente sacrificadas à necessidade em todos os outros lugares; ali, tudo pode crescer e expandir-se à vontade, inclusive, o que é inútil e até o que é prejudicial. O domínio mental da fantasia é também uma reserva assim recuperada das invasões do princípio da realidade”. (Leo Marx, 1976, p. 12)

Quanto ao medo, lembra-nos Ramsey Clark que ele “já nos induz a pensar mais na incolumidade do que na justiça” e Furio Colombo (1973, p. 56) utiliza esse testemunho para explicar as violações da lei cada vez mais frequentes, no mundo, pelos próprios órgãos legais.

É a mídia o grande veiculo desse processo ameaçador da integridade dos homens. Virtualmente possível, pelo uso adequado de tantos e tão sofisticados recursos técnicos, a percepção, é mutilada, quando a mídia julga necessário, através do sensacional e do medo, captar a atenção. Muitos movimentos ecológicos, cevados pela mídia, destroem, mutilam ou reprimem a Natureza…

Quando o “meio ambiente”, como Natureza-espetáculo, substitui a Natureza Histórica, lugar de trabalho de todos os homens, e quando a natureza “cibernética” ou “sintética” substitui a natureza analítica do passado, o processo de ocultação do significado da História atinge o seu auge. É também, desse modo que se estabelece uma dolorosa confusão entre sistemas técnicos, natureza, sociedade, cultura e moral.

Bradamos contra certos efeitos da exploração selvagem da natureza. Mas não falamos bastante da relação entre sua dominação tecnicamente fundada, as forças mundiais que insistem em manter o mesmo modelo de vida e o fato já apontado, desde os anos 50, pr G. Friedmann, de que a tecnicização está levando ao condicionamento anárquico do homem moderno. A racionalização da existência, tão dependente das relações atuais entre técnica e sociedade, é um dos seus pilares.

Ontem, a técnica era submetida. Hoje, conduzida pelos grandes atores da economia e da politica, é ela que submete. Onde está a natureza servil? Na verdade é o homem que se torna escravizado, num mundo em que os dominadores não se querem dar conta de que suas ações podem ter objetivos, mas não têm sentido. O imperativo da competitividade, uma carreira desatinada sem destino, é o apanágio dessa dissociação entre moralidade e ação que caracteriza a implantação em marcha da chamada “nova ordem mundial”, onde os objetivos humanos e sociais cedem a frente da cena, definitivamente, a preocupações secamente econômicas, com papel hoje onimodo da mercadoria, incluindo a mercadoria politica. Não só a natureza é apresentada em frangalhos, mas também a Moral, e, na ausência de um sentido comum, já dizia o Marx da Miséria da Filosofia: “é fácil inventar causas místicas”.

Não basta, porém, o criticismo, para exorcizar esses perigos que nos rondam. Já em 1949, Georges Friedmann nos aconselhava a considerar que esse meio técnico “é realidade com a qual nos defrontamos” e que, por isso, “é preciso estudá-la com todos os recursos do conhecimento e tentar dominá-la e humaniza-la”

Milton Santos

Em 1992: A Redescoberta da Natureza

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