A Gruta do Lou

A narrativa pertence à escrita


Renato Corte Real

 

 

 Entrevista com Paulo José Miranda

Por Maria João Cantinho

 

Paulo José Miranda é poeta, escritor e dramaturgo. Licenciou-se em Filosofia pela Universidade de Lisboa. É membro do Pen Club desde 1998. Publicou três livros de poesia, quatro novelas e uma peça de teatro. O seu primeiro livro de poesia venceu o Prémio Teixeira de Pascoaes em 1997 e a sua segunda novela venceu o primeiro Prémio José Saramago em 1999. Recebeu uma bolsa de criação literária do Ministério da Cultura para escrever a sua terceira novela e uma outra da Fundação Oriente para viver três meses em Macau e escrever a sua quarta novela. O seu último trabalho é “America”: um texto àcerca da América em 99 pontos (tem mais dois livros a serem publicados). No âmbito da poesia: “A Voz que nos Trai”, 1997 (Primeiro prémio Teixeira de Pascoais em 1997), “A Arma do Rosto”, 1998, “O Tabaco de Deus”, 2002. Quanto à ficção, tem publicadas as seguintes obras: “Um Prego no Coração”, 1998, “Natureza Morta”, 1998 (Primeiro Prémio), “Vício”, 2001 (Bolsa de criação literária do IPLB), “O Mal”, 2002 (Bolsa da Fundação Oriente). Escreveu, ainda, uma peça de Teatro: “O Corpo De Helena”, 2002.

Maria João Cantinho – Qual o sentido de escrever um texto como América na actualidade e, sobretudo, na Europa, que vive a condenar os erros políticos da América?

Paulo José Miranda – Antes de mais, o texto não tem uma pré-elaboração. Contrariamente aos outros meus textos, que são muito pensados e mastigados antes de começar a escrevê-los, este surge como me surge um poema. Em muito poucos dias o texto estava escrito. E só quando estou a meio do texto é que tomo consciência do que estava a fazer, isto é, das inúmeras e diversas implicações do mesmo. Agora, a América (EUA) é incontornável; ela marca o último século como mais nenhum país o fez (e num século onde as transformações foram vertiginosas). Marca-o também, não só pelas influências que opera em todo o mundo, mas ainda pela tenacidade, pela continuidade do seu “projecto”. A América é sempre maior do que nós. Podemos sempre apontar-lhe o quisermos, mas não podemos deixar de senti-la como o centro que nos puxa continuamente para a sua gravidade, independentemente de querermos ou não. A América é actual enquanto a internet o for! Evidentemente, podemos viver sem internet, sem telemóveis, sem automóveis, sem aviões, sem frigoríficos, mas isso não faz destas coisas, coisas não actuais. A actualidade é a vida das pessoas. Uma cerveja fresca em qualquer lugar, a qualquer hora, tem o sabor da América (já para não falar dos refrigerantes). A refrigeração continua a ser actual, assim como a condução de veículos motorizados. A internet, por outro lado, está agora a efectivar a sua actualidade. Por conseguinte, parece-me, a América ainda tem futuro.

M.J.C. – Que futuro tem a América?

P.J.M. –

M.J.C. – Comparo o teu texto ao texto kafkiano sobre a América. Aliás, esse é o único texto optimista de Kafka. O que te traz a esse optimismo?

P.J.M. – Porque a América é optimista! A América representava ao tempo de Kafka aquilo que ainda hoje representa: um querer ser-se maior do que se é (ainda que haja ou houvesse sempre quem queira derrotar o optimismo). Há uma outra comparação possível entre os nossos textos: ambos nunca visitámos a América. Mas as comparações acabam aqui, na excepção de optimismo dos textos (dele e meus) e no desconhecimento do “espaço” da América.

M.J.C. – Achas que, neste texto, te afastas da tua escrita anterior? Ou vês nele uma continuidade em relação à tua obra, particularmente no que respeita à ficção?

P.J.M. – Seguramente, América não é ficção. Não se trata obviamente de um ensaio, mas também não é um texto ficcionado. Prefiro vê-lo como um poema ou até como uma carta de amor. Mas, sem quaisquer dúvidas, trata-se de um texto singular no conjunto da minha obra.

M.J.C. – Mas não se escrevem cartas de amor nem poemas, subdividindo-os em pontos. O teu texto aproxima-se muito mais de um texto ensaístico…

P.J.M. –

M.J.C. – Que te leva a ser tão peremptório em afastar América dos teus livros de ficção?

P.J.M. – A ausência de narrativa! O mais importante na ficção… Podemos mudar a palavra para romance e novela?

M.J.C. – Claro!

P.J.M. – O mais importante na novela ou no romance é a narrativa. Quando digo narrativa não quero dizer “contar”; narrar não é contar uma história. Contar é do domínio da oralidade, narrar do domínio da escrita.

M.J.C. – E escrever, como já disseste uma vez, é pôr a língua a pensar. O que significa isso?

P.J.M. – Exactamente! Obviamente, pode-se pensar sem escrita, mas escrever é o lugar privilegiado para a língua pensar. Mas a língua pensa melhor em outras formas de escrita do que na novela ou no romance, pensa melhor no ensaio ou no texto filosófico (em relação à poesia não sei se está em melhor ou em pior situação para que a língua pense). O que difere as primeiras formas das segundas é a narrativa ou a ausência dela. A novela e o romance tem o dever de pensar a narrativa. O que é narrar? Como fazer com que a narrativa seja conforme àquilo que se narra? Assusta-me que um escritor tome como inevitável que vá narrar na primeira ou na terceira pessoa gramatical, sem que pergunte por isso.

M.J.C. – Porquê?

P.J.M. – Porquê? Depois, julgo que seria aconselhável que se procurasse as formas do nosso próprio tempo, ao invés de se tomar de empréstimo as formas de outros tempos. Isto foi precisamente o que fiz quando escrevi a trilogia do século XIX, tomei várias formas de empréstimo ao tempo que não era o meu. Precisamente o contrário do que acabei de fazer com os dois romances que escrevi e que ainda estão inéditos. Por tudo isto, terei de ser peremptório em afirmar que América não é um texto de prosa, não tem narrativa.

Fonte aqui

Share this:
Share this page via Email Share this page via Stumble Upon Share this page via Digg this Share this page via Facebook Share this page via Twitter

4 thoughts on “A narrativa pertence à escrita

  1. Estarei contigo no meu pensamento ao longo do dia…
    O Senhor dar-te-à o que precisas: nada mais, nda menos!
    GOD BLESS YOU.
    T.
    ps: estive vendo as fotos de família… uma família linda, os filhos são bem a mistura fisionómina de ambos os pais… lindo!

  2. Lou,
    já estou orando pela luta de hoje,
    por aqui é assim,
    temos lutas e lutas e lutas.
    mas, como vc mesmo falou,
    Deus nos surpreende! e isso é mais que consolador!
    beijos,
    alê

  3. Lendo Dostoiévski ( Crime e Castigo; Os Irmãos Karamázovi) vemos que a América representava lugar de reúgio ou degredo para as personagens russas. A internet é uma gruta, logo a América é uma gruta. A américa é optimista, pois pelo menos a pena é cumprida.

    Sirva-me um pixel de vinho!

    Abraço

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.