A mordaça pascal

Acho legal demais o carinho, quase paternal, que todos têm para comigo. Não é raro me emocionar com as palavras que leio na caixa de comentários. Em certos momentos me sinto como Jesus (apesar dele estar querendo acabar com minha síndrome de salvador do mundo, como bem lembrou o Brabo), não como se fosse um deus, mas alguém que recebe o cuidado dos seus companheiros, como os discípulos faziam com o mestre. Na verdade, sou eu quem deveria cuidar e zelar pelos hospedes da gruta, não por ser uma espécie de cristo, idéia inconcebível até para mim, e sim por ser um sofredor maltrapilho mais velho.

O que estamos experimentando aqui é um pouco do que se passou nos dias em que Jesus seguiu resoluto para seu calvário. Todos os seus seguidores sentiram grandes dores e ele emudeceu. Nós todos estamos suportando as nossas dores enquanto o Mestre Galileu parece estar mudo em busca de seu destino salvífico. Ele havia falado ao povo durante três anos. Deu-lhes as instruções necessárias e agora estava amordaçado. Foi silenciado pelas dores que tomou sobre si e tratou de seguir para o monte com a finalidade de crucificá-las. Enganam-se os que pensam ter sido Jesus filho de Deus o crucificado. Na verdade, foram os nossos pecados e misérias os crucificados. Esse ato único valeu por todo o sempre. Anulou o que ficou para trás, bem como o que veio pela frente, até a eternidade.

Foi o silêncio mais precioso sobre a face da terra, em todos os tempos. Um tapa boca milagroso e sem igual. Sei que não é politicamente correto ficar falando de minhas dores. Sou um ponto nesse universo. Sofro as minhas dores e sou tão imperfeito que tenho dificuldade em identificar os sofredores à minha volta. Muitas vezes passo por insensível por não reconhecê-los. Entretanto, o nosso Mestre Galileu reconheceu a todos e ainda lembrou-se de nós, os que viríamos muito tempo depois, os bem-aventurados que não viram e creram.

Se algo me diferencia dos demais é uma coisa só: meti na cabeça a idéia de que minhas dores são lembretes das dores dos meus semelhantes.

É Páscoa. Lembramos da subida do monte com a cruz nos ombros, o horror da crucificação, o sepultamento e a ressurreição. O mundo pára por três dias e temos a oportunidade única de anunciar o feito cristão.

Feliz Páscoa a todos.

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4 respostas para “A mordaça pascal”

  1. Desejo-te a ti e à tua família (esses sim uns verdadeiros heróis por te aturarem… eheh) uma excelente Páscoa.

    Abraços fortes deste teu amigo do outro Cantinho do Oceano.

    DVA.

  2. Quanta lucidez…transpassa qualquer meio…

    ” As minhas dores são lembretes das dores dos meus
    semelhantes”

    Pelo menos para isso elas servem. Antes não precisássemos disso.

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