A Gruta do Lou

A minha carta é muito melhor (ou pior) que a sua

Vira e mexe, encontro-me prostrado em meu quarto, enquanto houver um, com vontade de não estar aqui, mas em algum lugar onde pudesse produzir o pão nosso de cada dia, ao menos, ou não fosse motivo de escândalo para minha família, meus amigos e você leitor. Mas cá estou traveis.

Dia desses, entrei em contato com um amigo, não tinha intenções ruins, claro que se ele se dispusesse a algum ato benevolente em meu favor seria legal, mas não buscava nada dele, além de uns tocados, talvez. Entretanto ele ficou repetindo a frase “Não sei o que lhe dizer” um monte de vezes. Não disse a ele, mas uma outra coisa que eu não esperava dele, era que me dissesse qualquer coisa, para ser sincero, também não tinha muito a dizer-lhe. Algumas pessoas se agitam quando as coisas não vão bem, quanto a mim, acontece exatamente o contrário, fico prostrado. Se quer saber, nem pensar eu penso, nessas horas, ou penso sobre qualquer coisa que não tenha nada a ver com a situação real e ruim, em curso.

Um pastor famoso foi chutado pela revista evangélica onde ele mantinha uma coluna mensal há uns vinte anos, talvez você saiba a quem me refiro. Se você gosta dele, bom para você e bom para ele. Mas o cara ficou todo perturbado, com esse revés. Afinal, ninguém gosta de ser preterido, muito menos quem tem ego grande. Não entrarei no mérito desse acontecimento, pode sossegar aí. Só estou criando o clima para falar de mim mesmo. Acho que citando um famoso antes, tenho mais chance de não perdê-lo antes de dizer-lhe o principal. Parábolas podem fazer o mesmo serviço e acho que Jesus, aquele do Novo Testamento Bíblico, usava mais esse meio. São só ferramentas de linguagem, não ligue.

Vinte anos atrás, dava aulas em um seminário, entre outros. Era uma escola meia-boca lá em Arujá, mantida pela organização (sic) Missão Jovens da Verdade. Como é o hábito das nossas organizações brazucas, era mais uma instituição onde falta tudo, a começar de dinheiro suficiente para seus sonhos mirabolantes. Quando cheguei lá, perguntei aos líderes qual era o principal objetivo da Missão (desculpe a redundância), como sempre faço quando chego a algum desses lugares e me responderam que era Ganhar os jovens para Cristo. Disse-lhes: Sei. A seguir perguntei-lhes de que jovens eles estariam falando, e me responderam: “os jovens brasileiros, ora!”

Fiquei pensando… estávamos em 1989, se em 1970 éramos noventa milhões em ação, como cantava a música da copa, e agora o senso nos dizia que chegávamos a ser cento e vinte milhões, então “jovens brasileiros” dizia respeito à nada módica quantia de trinta milhões de tapados com menos de trinta anos. Não ligue, só até o século XIX as pessoas com essa idade eram cultas, pois viviam menos e tinham mais urgência em aprender. Nos nossos dias, não podemos confiar em ninguém com menos de trinta anos, aliás, eu não confio em ninguém com menos de sessenta e você deve imaginar por quê.

A seguir fiz a pergunta trágica, depois de dar mais uma olhada naquelas instalações quase tapéricas, naquele fim de mundo, atrás da pedreira já quase sem pedras do finado Vicente Matheus, nosso eterno presidente: Que raios de estratégia (hoje planejamento estratégico) vocês pretendem utilizar para alcançar trinta milhões de jovens com o evangelho, antes que a morte lhes alcance? Claro, de repente, poderia ser um plano a longo prazo, a ser cumprido em algumas ou muitas gerações, embora não haja muito disso por aí. Tirando as religiões, as Pirâmides do Egito, capitalismo, o Niemayer e o João Havelange, nada dura tanto. Apesar que o Jonathan espera eternizar-se, tanto quanto e até já tratou de imitar os faraós lá em Araçariguama.

Faço menção a esse detalhe só para você sentir a imbecilidade dos malandros, no bom sentido, claro. Eram tão idiotas quanto os caras que mantém a revista que acaba de chutar o bum-bum do nosso “amigo” pastor de ego grande, tanto ou mais que o meu. Essa gente não tinha noção do que estava fazendo e continua não tendo. Dei aulas lá por uns dois anos letivos. Evidentemente, não aviltei meus métodos heterodoxos de ensino e nem meus pressupostos teológicos da contra-mão. Como um dos melhores produtos da escola vocacional, tratei de utilizar o livre pensar, o trabalho em grupos, a participação, o estudo do meio e, sobretudo, a menor interferência possível do professor, que só deve servir para lavar os pés dos seus discípulos e, para completar, invocando pressupostos teológicos, digamos, menos ortodoxos no melhor estilo Barth, Bonhoeffer, Tillic, etc. Imaginem a cena.

Então os alunos resolveram me convidar para ser o paraninfo deles, quebrando uma tradição milenar que havia na escola, onde só o casal, diretores da escola, desfrutava desse privilégio. Quando os alunos me informaram sobre a escolha deles, ainda fiz algum esforço para demover-lhes da idéia, mas meu orgulho falou mais alto e resolvi aceitar, já imaginando onde isso acabaria.

Não deu outra, invocando motivos relacionados a conflito de interesses e diferenças teológicas, fui chutado por telefone, no início do ano seguinte. Bom lembrar que dez anos antes, quase a mesma situação ocorrera na Missão Portas Abertas e depois desse caso, outras organizações babacas vieram e, novamente, fui ensacado por elas, sem nenhuma criatividade, pois os motivos alegados continuaram os mesmos. Fora que, na maioria das vezes, as pessoas que me executaram eram todas minhas amigas!!!!

Engana-se o querido de vocês que suas lindas e inusitadas idéias, as quais gente mais famosa que ele já defendia nos séculos XVIII, XIX e XX e/ou antes, tenham sido a razão pela qual ele foi defenestrado. Gandhi disse lá na longínqua Índia, na primeira metade do século passado, que o mundo (e ele se referia ao mundo dominado pela classe idiota) não suporta rebeldes, não conformistas, dissidentes, enfim, quem consegue pensar além do que eles são capazes ou se atreve a pensar diferente deles, simplesmente, ou pior, quem se atreve a pensar, coisa que eles não fazem, frequentemente.

E não é só isso, o pior vem agora e isso eles não irão suportar, eu cavei a minha sepultura no Jovens da Verdade, na Portas Abertas, nos Vencedores, no Exército de Salvação, na Igreja Maná, na Batista, na Faculdade Metodista Livre, na ESTE, no Refúgio, na ACB, no Esquadrão Vida e sei lá quantas pocilgas mais me chutaram os fundilhos. As minhas ferramentas tumulisticas foram, primeiro esse meu ego imenso e insuportável e depois todo esse comportamento desalinhado que ele ocasiona para horror de toda a comunidade imbecil desnecessária evangélica e eclesiástica. Talvez até houvesse em mim algum sentimento evangélico nobre, do tipo educar melhor ou até servir ao Senhor. Mas essa informação acho que só obterei na recepção do inferno, quando lá chegar.

Meu, tá chorando por que? E o cara ainda tem uma baita igreja que o aplaude de pé, não importa o que ele diga, e quase sempre não é nada que se aproveite. Mal estou eu aqui, só, esquecido, endividado, despejado e nem sei quantas desgraças mais. Não há ninguém que me tire desse purgatório. Posso afirmar que não há inferno pior do que imaginar que se tivesse sido simplesmente um deles, não estaria aqui e assim agora. Provavelmente, estaria como eles, com algum grande problema a decidir, tal como, comprar o novo Iphone ou um Ipad para o Thomas, ou um para cada um dos três, por exemplo.

Para com isso meu e vá tomar mais sorvete, andar descalço na areia da praia, vestir sua nova Lacoste e desfrutar sua Harley. Enquanto eu dou tratos à bola para conceber algum plano mirabolante que me tire dessa cama, rumo ao sucesso!

Se não resultar em nada melhor, certamente terei logrado afundar o buraco em alguns metros mais.

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