A Gruta do Lou

A mensagem secreta do Novo Testamento

 

Quanto mais vivo, mais me pergunto se viver é só isso. Essa pergunta me aproximou de algumas opções, por exemplo: de Deus com sua Bíblia, igreja e gente como eu, dando a entender que possuíam domínio sobre esse Deus e suas coisas, entre elas, a resposta a essa questão. Outra opção, as pessoas do passado e algumas do presente que conquistaram o saber através da filosofia e depois deram suas versões para essa indagação. Andando por aí, aqui e ali, também encontrei gente de várias origens, simples e/ou afetadas arriscando suas explicações ou tentativas de responder minha pergunta.

Os dois maiores problemas para acreditar nessa ou naquela proposta sempre foram: primeiro, o ser humano e seu histórico de ousadas asseverações mais ocas do que grutas de pedra no meio de morros uivantes e depois a própria vida sempre contrariando o ser humano e, pior, a Deus ou o deus também criado por nós mesmos.

Para o ser humano mais primitivo, aquele que fez do sol e da lua seus deuses e das outras estrelas a filharada desse casal, foi mais fácil e até mais objetivo. Mas os seres humanos, digamos, mais civilizados, criaram deuses ou Deus mais complexos. Para estes, os astros deuses dos primitivos são apenas objetos de estudo dos astrônomos com suas explicações sobre a função e influência dessas estrelas em nossas vidas e na vida do nosso planeta. Quanto ao Deus criado por estes indivíduos mais complicados o mais difícil de entender é o caráter espiritual dele. Deus é espirito. Parece uma daquelas respostas que um pai se vê obrigado a dar a seu filho diante de uma pergunta inoportuna para a qual ele não tem resposta alguma.

Provavelmente, o ser humano tenha vivido com a mesma pergunta que venho fazendo ao longo de minha vida pouco significativa, por toda a história da civilização. Em alguns momentos, sentindo-se acuado, fez tentativas de responder, entre elas, jogando a culpa toda no tal deus espirito. Nesse tempo, surgiram os sacerdotes jurando terem sido escolhidos pelo Deus espírito para representá-lo junto aos outros seres humanos. No caso dos judeus, uma das doze tribos, a saber, os levitas, virou-se para o sacerdócio, inteirinha. Durante todo o período englobado pelo Antigo Testamento, esse pessoal fez o povo de gato e sapato, sempre em nome de Deus, ou seja, o deus-espírito.

Entretanto, desconfio deles, embora não tenha conhecido nem um só levita, nem nunca conheci e a razão disso é que nenhum judeu contemporâneo sabe a qual tribo pertence, segundo eles, porque tal conhecimento se perdeu ao longo da história. Bom, não vamos perder muito tempo com essas picuinhas, pois nosso propósito aqui é muito menos pretensioso se levarmos em conta os escritos daqueles que ousaram escrever a história do povo de Israel.

Não estou querendo jogar água fria na fé e religiosidade de ninguém, nem na dos primitivos, nem na dos posmitivos e nem na minha. Minha proposta está exatamente na outra direção. Quero levantar a bola com uma proposta que me parece inédita, pelo menos, nunca havia ouvido ou lido sobre algo parecido.

Os judeus acalentam desde não sei quando, um conhecimento extra-literal, mas que creem estar por trás das palavras do texto bíblico ao qual dão o nome de Cabala. Na interpretação literal do texto bíblico, os judeus atem-se à lei, seus mandamentos e às instruções dos profetas bíblicos. Mas na ótica da Cabala, Deus aparece por entre as palavras e as vidas dos personagens bíblicos de forma espiritual, afinal nessa visão, Deus é espírito, também, e torna-se muito mais do que tudo que vemos e vivemos em nossas vidas de seres humanos em nossos contextos concretos. Seria uma espécie de mensagem secreta encriptada nas palavras do texto original.

Até aqui, estou chovendo no molhado e sem grandes novidades, mas prepare-se, lá vem bomba. Então, eis que surge uma figura, no próprio meio judeu, em algum lugar da chamada Terra Santa, praticante da religião judaica, exatamente no inicio da nossa era, ou seja, dos chamados anos D.C., subvertendo a Lei, os profetas e tudo mais, na melhor das performances cabalísticas de que se tem noticias. Estou falando, de Jesus Cristo, obviamente.

Não creio que Jesus tenha aprendido com algum mestre da sua época qualquer coisa sobre a Mensagem Secreta, mas arrisco dizer que ele era e continua sendo a Mensagem Secreta. A partir dele, teria se iniciado uma nova Mensagem, totalmente encriptada nessa pessoa e sua história toda enigmática, não mais aquela que os Judeus encontram na Lei e nos Profetas, mas outra que vamos encontrar na Vida de Jesus Cristo.

Agora darei uma de mente hebraica e começarei lá do fim. Quando Jesus estava na cruz, ainda vivo, ele clamou: “Pai, por que me desamparaste?” Algumas traduções para nossa língua portuguesa preferem “Pai por que me abandonaste?” e têm lógica. Para mim, as duas juntas emprestam mais força a esta cena, na qual penso ver uma imensa revelação de Jesus. Era um momento de tensão inimaginável para quem nunca passou por uma sinuca de bico igual aquela. Olha que já fui cercado e agredido na porrada por uma hoste de policiais violentos e dispostos a tudo e, mesmo assim, não consigo me ver naquela situação experimentada por Jesus, inclusive porque os soldados romanos fizeram questão de caprichar mais no sofrimento dele do que faziam sofrer os outros crucificados que não eram poucos.

Esse clamor sofridamente expressado por Jesus naquela hora, em voz alta de forma a ser ouvido pelas pessoas presentes e próximas me atinge de forma contundente. Primeiro porque ou Jesus estava cometendo uma imensurável contradição, ou fazendo uma declaração das mais importantes considerando tudo que disse enquanto viveu. Não podemos esquecer que ele disse textualmente: “falo por parábolas e enigmas”. Em termos mais pós modernos, ele estava dizendo textualmente que sua mensagem evangélica e neo-testamentária estava toda encriptada, inclusive a mensagem da cruz. Segundo, você e eu estamos carecas de saber que Jesus ensinou sobre um Deus pai incapaz de abandonar quem quer que fosse, inclusive nós dois, por pior que sejamos.

Perdi um filho queridíssimo, há pouco tempo e senti um baita desamparo, um abandono para o qual não possuo palavras para explicá-lo. No meu caso era sentimento de abandono mesmo. Perguntei-me com todas as minhas forças que Deus era esse, capaz de me largar só, com minha desgraça nas mãos quando mais precisei dele. Pensei e disse tudo isso, certo de haver um Deus onipresente por ali. Ora, se Deus, pai de Jesus estava presente ali ao lado daquela cruz infame a qual Jesus foi submetido, por que ele precisou gritar. Deus lê pensamentos nossos, quanto mais os do filho dele, é o não é? Teria o próprio Cristo perdido a fé momentaneamente, naquele momento? Afinal ele estava ali na condição humana, como qualquer um de nós.

Não creio. Jesus estava cumprindo sua missão e aquelas eram as suas ultimas palavras para a humanidade, aquelas que iriam vigorar e ecoar mais profundamente por todos os anos que se seguiriam, até a sua volta. De fato Deus não abandona ninguém, muito menos a Jesus, seu filho único. Então, o que teria acontecido? Ai vai a minha proposta, mas antes quero lembrar que é só um palpite. Não quero lançar nenhuma nova teologia e muito menos cometer qualquer heresia. Quando muito, pretendo deixar uma pulguinha atrás da sua orelha. Vem a ser uma tentativa mal e porcamente desenvolvida de decriptar a mensagem do Novo Testamento.

Imagino que Nietzsche, apesar de toda sua incredulidade conhecida, mas com amplo conhecimento do texto bíblico, possa estar certo. Deus morreu. De que Deus estou falando? Estou falando do Deus do Antigo Testamento, aquele que se parecia mais com um rei, autocrático, ditador, que colhia onde não semeara, que cortava as mãos dos ladrões, que não poupava seu povo quando se enrolava no pecado, que dizimava os povos rebeldes e desobedientes, sobretudo por serem incapazes de observar sua lei, extremamente severa, diria mesmo, impossível de ser cumprida. Um Deus quase rancoroso, que desejava ser amado muito além da conta ou de nossa capacidade de louvar e amar, ciumento, competitivo e inflexível.

Apesar de tudo, esse Deus, muito poderoso e soberano, mas capaz de um dos mais belos e magnânimos atos que se tem noticia, a criação do universo e da raça humana, a única conhecida até aqui, resolveu sair de cena e abdicar em favor de seu filho e único herdeiro. Reis pensam assim, ora bolas. Para tanto, instituiu um ritual pelo qual o herdeiro precisaria passar para assumir o trono do Pai e deu a ele total liberdade para ser Deus como ele desejasse ser. Então Jesus foi enviado para vivenciar seu futuro reino e descrever quem era Deus, em sua concepção. Seu ministério não teria sido um tempo de campanha semelhante a um candidato para um cargo qualquer. Entretanto, importava mostrar à raça criada por seu pai quem ele era e pretendia ser, então ele passa a descrever Deus como pai, todo amoroso, magnânimo, perdoador, bondoso, misericordioso e alegre. Esse era o Deus herdeiro, aquele que ele próprio viria a ser, quando assumisse o papel de Deus. Claro que Deus, pai de Jesus continua por ai, provavelmente curtindo sua aposentadoria, plenamente satisfeito com o Deus que seu filho se tornou, em suas próprias palavras, saiu-se muito melhor que a encomenda.

Lembre também que não inventei essa parte também, Jesus disse claramente: “Eu e o Pai, somos um, quem vê a mim vê ao Pai”. Quando Jesus chegou naquele ponto, logo após perceber sua condição de Deus, gritou seu desamparo e consciência de que agora era com ele, então completou: “Está consumado.”

Há muito mais a ser revelado no Novo Testamento, há muito tempo deveríamos estar cuidando de decriptar a mensagem ao invés de perder tempo admirando parábolas e enigmas. Eles estão ali para serem decifrados. Evidentemente, não para servirem de pretexto para as tais ousadas asseverações dos falsos profetas.

Viver não é só o que vemos, mas particularmente o que só podemos ver se conseguirmos abrir os nossos olhos, como os olhos de Paulo foram abertos, formando uma metáfora do que estou lhes dizendo.

Jesus deu início à sua peregrinação ritualística anunciando: “É chegado o reino de Deus”. Provavelmente o Reino no qual ele seria o soberano. Não estou supondo sequer a existência de dois deuses, mas me mantendo na tríplice natureza divina após o ritual de passagem de Jesus e seu ápice naquela cruz, Deus é Pai, Filho e Espirito Santo. Jesus reina, e em seu reinado, nós somos convidados a cumprir seu ritual de passagem, tomando a nossa própria cruz e seguindo a dele. Esse é o caminho, o único, na direção do Reino que Ele preside. Suponho.

Agora é com você.

morcego-12

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