A Grande Tentação

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Planejamento é uma ação interessante. Fala-se muito sobre o tema e há grandes resultados com a utilização dele. Estão aí os arranha-céus, o desenho das ruas e avenidas em função do funcionamento das cidades, transportes, redes de luz, água, esgoto, abastecimento, cirurgias, tratamentos, ações militares, esportes, vendas, produção, os projetos de todos os tipos, etc, etc.

Até a vida doméstica é e pode ser planejada e a vida pessoal virou objeto de planejamento, também. Fiz alguns treinamentos específicos, além da escola, nessa área. Mas gosto do jeito como o Amyr Klink (nosso grande navegador) coloca a coisa: “A isso é só um desafio de administração”. Não há como contestá-lo. Esse cara deu a volta ao mundo pela convergência Antártica (em miúdos, deu uma volta completa no Polo Sul, ou continente Antártico) em um barco a vela. Para mim isso ainda não foi seu maior feito, pois considero sua travessia do Atlântico, desde o continente africano até Salvador – Bahia, em um barquinho a remo, seu feito mais impressionante, embora ele discorde com sua conversinha mole do tal desafio de administração.

Admiro demais as pessoas capazes de viver desse modo e os apologistas do planejamento costumam exagerar ao ponto de afirmar: “Pessoas assim, não tem como não dar certo”. Se você me conhecesse melhor, diria ser essa a minha melhor opção de vida, ou seja, planejar para vencer, sempre. Eu pensava assim, também.

Na Bíblia há alguns textos contrariando esse pensamento. Quando os li, nas primeiras vezes, não dei maior importância, mas os fatos da vida acabaram me fazendo dizer aquela frase imortal: “E a Bíblia tinha razão”.

Neste momento estou vivendo, afinal todos os dias, quando acordo, percebo o quanto viver não é opcional. Às vezes, até me surpreendo com certa tristeza e digo para mim mesmo: “Puxa! Estou vivo e preciso corresponder a isso hoje, de novo”. Então olho em volta e logo vejo os problemas por resolver, as contas para pagar, aquela mulher iceberg logo ligando para me cobrar, ameaçar, espezinhar, a moça da imobiliária inconformada com minha liberdade de horário, sempre arrumando algo para me dizer bem cedo, via celular reservado.

Nada disso tem grande importância. Há as pessoas amadas, minha esposa, meus filhos e temo só em pensar o quanto preciso apoiá-los, estar pronto para eles, enquanto temo minha incompetência para tanto. Mesmo com todo meu preparo, acima da média provavelmente, na arte de planejar, não sinto a menor vontade de elaborar qualquer plano. Em suma, pretendia fazer minha família feliz e ser feliz. Levar a eles e a mim numa travessia segura de nossas vidas. Mas os planos do Universo eram diferentes dos meus e os sobrepujaram.

Hoje, não tenho coragem de planejar algo para mim. Sabe-se lá as intenções do Universo (estou tentando não dizer Deus). Quando saio de casa, não sei se vou para a direita ou para a esquerda. Lutar, esperar, viver ou morrer. Sei lá. Ajunta aí meu, de noite você sente dor no braço esquerdo e de manhã, bau bau. Agora, se não ajuntar, eles virão zombar de sua cara e lhe chamar de incompetente. Desconfio muito dos caras vitoriosos. Pra mim eles disseram sim ao diabo no dia em que ouviram a grande tentação. Só pode.

Não planeje e viva apagando seus incêndios, correndo atrás de grana ou fugindo do prejuízo e dos credores. Planeje e corra o risco da frustração, a menos que você seja um Amyr Klink. Mas aviso, não há muitos caras como esse por aí. Dizem serem todos nascidos em 1955, como o Jobs e o Gates são, também.

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