A Gruta do Lou

A Cabana em debate

Não estava pensando em divulgar esse acontecimento, mas ao ler o blog do Alex Fajardo, essa manhã, resolvi fazê-lo, afinal não tínhamos um Alex presente em nosso evento. Agora, a coincidência de fatos me animou sobremaneira.

Fotos não temos, será um relato no gogó, digo na pepe, ou seja, na arte dos meus dedos. Bem que Deus me disse: Do trabalho de suas mãos viverás.

A narrativa

Meu amigo, quase único, fora ele teria mais dois ou três, Pr. Neto me convidou para debater sobre o livro A Cabana, na noite de segunda-feira dia 27 de abril, lá na Igreja Deus é Fiel onde ele pastoreia. É uma Igreja imensa. Sentados, devem caber umas quarenta ou cinquenta pessoas, se apertarmos bem as cadeiras, tipo avião da Gol ou LAM (Linhas Aéreas Moçambicanas). Os irmãos frequentadores são idosos e gente classificada como classe C ou D. Quando o Pr. Neto pediu para levantar a mão quais, dentre os doze presentes, havia lido o livro, não houve um braço erguido, sequer.

Além de minha auspiciosa presença, afinal estou trabalhando na sala acima do salão desta magna igreja e foi fácil me convencer a participar, principalmente depois dele garantir a pizza depois da contenda, fez parte do nosso estrondoso debate o Pr. João Ibitirama, muito conhecido nos segmentos mais, digamos, populares da nação cristã evangélica. Como a maioria dos nossos leitores pertence às classes mais privilegiadas, creio ser importante descrever o currículo do meu oponente, já que o Pr. Neto funcionou como mediador, apenas. O Pr. Ibitirama é daqueles irmãos incapazes de ler qualquer coisa além da sua própria bíblia, um tanto gasta, diga-se de passagem. Suas botas, aquelas estilo caipira com elástico do lado, para entrar nos pés mais fácil, e sola de pneu, costumam trazer resíduos visíveis do barro das favelas onde costuma evangelizar, ajudar, envolver-se e levar umas facadas, marcas que ele traz pelo corpo. Fora isso, seu currículo não traz mais nada. Nunca fez qualquer curso, seja de alfabetização, bíblico e muito menos acadêmico. Aprendeu a ler de orelhada, como costuma dizer. Preferiu não casar, pois entendeu que não poderia submeter mais ninguém ao seu modo de vida miserável, prudência a qual não fui capaz de imitar, devido ao meu proverbial egoismo. Reside nos fundos da casa da Irmã Mariazinha, nossa profeta emérita, em um canto que tem paredes de alvenaria de um lado e de outro papelão e tabuas bem amarrados com corda velha. Não há mais nada a dizer dele, a não ser, que essa foi a sua primeira vez como debatedor. Ah! Lembrei, ele costuma fazer algumas preleções no centro da Praça da Sé, onde fica até ser retirado pela polícia ou perseguido pelos pivetes em busca de seu único bem, um relógio paraguaio legítimo.

O Pr. Neto abriu os trabalhos perguntando ao Pr. Ibitirama se ele havia lido o livro tema do debate. A resposta resumida foi:

– Não. A única cabana que conheço é aquela onde nasci e me criei no agreste.

O mediador agradeceu a sinceridade e acrescentou: Fique tranquilo, pastor, além da nossa Plateia e do senhor, eu também não li o livro. Aliás, nem sei onde poderia adquiri-lo. Talvez leia um emprestado. Falou me olhando de soslaio.

Nessa altura, certo de que seria o próximo a ser indagado, já decidira mentir. Não admitiria ter lido o livro e gostado, para não constranger aquela gente boa e, talvez, preservar minha integridade física e moral. Nunca se sabe o que uma plateia dessas é capaz de fazer. Mas caí do cavalo quando, perplexo, ouvi as palavras do Pr. Neto em minha direção:

– Bom, mas aqui ao meu lado direito está o Lou, que já foi missionário, esteve na Albânia quando o regime político lá não dava liberdade religiosa ao povo, na África, particularmente em Moçambique quando o regime era marxista sob a mão de ferro do ditador Samora Machel e como diretor de creches em favelas paulistas. Ele é o único dentre nós todos que leu A Cabana e, certamente, contribuirá cem por cento em nosso debate.

A coisa funcionou assim, cada pessoa da plateia fazia uma pergunta que eu devia responder primeiro e o Pr. Ibitirama a seguir. Como só eu lera o livro, minha tarefa era descrever o texto incluso por William P. Young naquelas páginas, para o excomungado do Ibitirama avacalhar com tudo, a seguir. Foi assim durante longas doze questões. Expliquei, o melhor que pude, a trindade, ocasião em que o maldito exclamou: E eu nem sabia que havia mais de um Deus! Sempre achei mesmo estranho Jesus chamar Deus de pai. Para mim, Jesus, Deus e o Espírito Santo era tudo igual. Depois narrei a questão do sofrimento descrita pelo Willie e o dileto contendor observou: Você não quer sofrer? É fácil. Abandone a Cristo. Em Gálatas Paulo explica a razão: Cristo em vós a esperança da Glória. Não Cristãos podem sofrer, também, mas com Cristo o sofrimento é liquido e certo. Nosso tempo de refrigério se dará em outro mundo, onde só se entra com as marcas da cruz nos ombros. E arrematou: Como disse Jesus, “nesse mundo tereis aflições”.

Em minha última intervenção aproveitei para lembrar que o livro era mesmo uma grande porcaria, para fazer uma média Cult, talvez não devêssemos nem chamá-lo assim, mas a maioria já havia deixado o recinto e os poucos ainda presentes dormiam o sono dos anjos e isso não teve a menor importância.

16 thoughts on “A Cabana em debate

  1. Tá vendo, se vc tivesse convidado, ao invés de fotografar na tenda, eu teria ido ai ver a contenda deste debate e fotografado, e com certeza dois pedaços de pizza eu ia fisgar no final hehehe

    Se o evento fosse meu, certamente você estaria convidado para as fotos e para a pizza. Mas foi o Pr. Neto quem organizou e você sabe como ele é em matéria de gastos. Também, com aquela igreja merreca. 🙂

  2. Pingback: Lou Mello
  3. Lou, seu estilo de escrever é maravilhoso. O debate deve ter sido bom mesmo e ainda teve direito a pizza no final.

    Abraço

    Na hora da pizza o Pr. Ibitirama estava todo falante e eu calado, morto de vergonha. Daqui para frente lerei em segredo. 🙂

  4. Lou,

    Pelo menos “A Cabana” é mais fácil de ler do que “A Celebração da Disciplina”. Portanto debatedores que leram o livro é o que não falta!! rs!

    Pessoalmente penso que a ousadia, originalidade e criatividade do autor na abordagem dos temas foram muito felizes. Combinam bem com a realidade de nossos dias.

    Obviamente não é o melhor livro que já li. Tem lá seus exageros e viéis norte americanos. Mas gostei de ler e recomendaria par amigos cristãos ou não cristãos, especialmente para esses últimos.

    Abrçs,

    Roger
    PS: Por que você não perguntou a esse tal de Ibiratama se ele não era bicha e não levou o debate para outro rumo? Com certeza a platéia ficaria acessa!!

    Não sei. Talvez não o tenha chamado de bicha devido ao fato dele ser um afrodescendente com 1,95 mt de altura e uma mão de uns 40 cms. 🙂

  5. Debater A Cabana com o Ibitirama foi como querer ensi-
    nar o Pai Nosso ao Vigário.
    As “fotos” do seu debate são as mais reais que já ví..

    Essa é a história da minha vida.

  6. Será que essa cabana do livro de Young tem realmente algo a ver com a nossa Grutinha do Lou?

    Talvez seja a versão americanizada da Gruta. Afinal eles nos imitam em tudo. 🙂

  7. Cronologicamente, as Grutas existiram bem antes
    de qualquer cabaninha…

    Sem dúvida. Cabanas são parte do imaginário norte americano. Ele adoram uma cabana no mato. Basta haver um bom mato e eles tascam logo uma cabana.

  8. Poxa acabei de dar R$ 20,00 no livro, ainda estou terminando outro antes de lê-lo, vale mesmo a pena? rsrs.

    Conselho aprendido com Madre Tereza. Não gaste com esse livro. Use o valor em uma vida necessitada.

  9. Seu texto é cativante, quando agente começa ler, não consegue desgrudar-se dele, vai ate o fim. Ri o tempo todo. a forma de você narrar é muito engraçada e as palavras que você usa deixa o texto muito atraente. O debate deve ter sido bom. Se alguem deixou o recinto ou pegou no sono, com certeza a culpa foi do Ibitirama.

    Já me disseram que costumo causar isso nas pessoas. Mas não é intencional. 🙂

  10. Lou

    Como um legítimo descabanado, peço uma mudança de tema, senão vou ficar como o público do debate…

    Que tal a Cabanada? (não confundir com Cabanagem que é outra história). Jacuípes e papaméis se dariam bem na Gruta

    Rapaz, você me deu um trabalhão. Fazer pesquisa em véspera de feriado, com todo mundo saindo para viagens legais enquanto ficarei lambendo os dedos, não é nada agradável. Mas o resultado parece ter ficado bom, pena que poucos aproveitarão. Entretanto, valeu mesmo. Obrigado. Também estava cheio do tema, mas não resisti quando vi aquele debate exótico na IBAB. 🙂

  11. As vezes vale mesmo a pena, gastar R$20,00 com uma vida necessitada do que ficar enchendo nossas estantes de livros. Pensam que estou brincando??? É uma sugestão a se pensar…

    Apesar que, já gastei muitos vintões em livros, ao invés de trocar a sola gasta do sapato…

  12. Ô Lu, me dá o endereço do Pastor Ibitirama. Não tem nada que eu goste mais do que ouvir um sermão desses pastores arretados. Quando passo pela Praça da Sé e vejo um deles de bíblia em punho, morro de vontade de ficar ali na rodinha escutando, só não fico porque tenho vergonha. Nâo é vergonha de ficar ali não, é vergonha dos meus conceitos bobos, mesmo.

    Cabana é palavra importada, aqui a gente usa mesmo é barraco.

    Se você viu esses pregadores de rua, você viu o Pr. Ibitirama, pois ele estava em todos eles. 🙂

  13. Muito bonito seu blog…parabens ao designer..

    Gostei dos elementos.

    Abs..

    FRred

    Agradeço, mas devo acrescentar que minha participação foi mínima até aqui. Geralmente, modifico os templates. Esse tem um painel de configuração incluso que ajuda muito. Coisa rara. Se estiver interessado, o autor é o Webstudio Golden Dragon. Abraço e obrigado pela visita.

  14. é engraçado o teu texto, mas fala das pessoas mais humildes de forma presunçosa…
    Imagine o que falaria de Jesus com aquelas sandalias e roupas sem nunhuma formosura!

    A ideia era estabelecer as diferenças entre o mundo onde está a igreja dos ricos, da qual faz parte a IBAB e seus privilégios, dentre eles, montar um debate com Ed, Ariovaldo e outros pesos pesados da teologia, e uma igreja simples, da periferia paulistana, completamente fora do contexto, não apenas de A Cabana, mas de todo o resto, sem falar na pessoa de Jesus. Nesse caso, a presunção não seria minha, certo?

  15. Desculpe ter te interpretado mal, mas a presunção, acho eu, não vem da diferença social diretamente e agora que entendi o proposito do teu texto posso dizer que é a tentativa de um conflito desnecessario ou uma analogia sem proposito, pois creio que os homens de Deus da IBAB estão dando o melhor deles para o Senhor do mesmo jeito que o , ceretmanete, abençoado Pr Neto…
    Mas se tu és homem de Deus e está tentando dar o seu melhor… apaz do Senhor meu amado e desculpe se estiver confundindo novamente o proposito do teu texto. Meu objetivo não é criar uma discussão e sim falar o que entendi e penso.
    Abraço.

    Tá certo, tão pouco eu esticarei a conversa. Os homens da IBAB, alguns velhos conhecidos, estão dando algo a Deus, sim. Só não sou tão otimista quanto você em considerar como o melhor deles. Certamente você é muito mais generoso do que esse velho enciumado aqui. Abraço.

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