A Gruta do Lou

A agonia do meu Ensino Teológico

professor

Gastei bom tempo de minha vida trabalhando como professor em escolas de teologia. Além disso, fui aluno em três escolas de teologia. Em 1984, participei de um seminário com a Dra. Lóuis Mackney (acho que é isso), vinda lá do Wheaton College, sobre escola de missões e essa experiência solidificou vários conceitos e princípios relacionados à aprendizagem, didática de ensino e o ensino teológico. A Dra. Lóuis fora, em tempos anteriores, professora da Faculdade Teológica Batista, em São Paulo e conhecia bem o terreno. Embora tenha vindo a convite da Associação de Missões Transculturais do Brasil (AMTB), ela procurou trabalhar os fundamentos do ensino em seu seminário.

Transformado por aquela experiência e unindo à minha própria, muito impregnada de propostas mais modernas de ensino, adquiridas no Curso Básico de Humanas da PUC (Pontifícia Universidade Católica), parti para uma proposta inovadora de ensino, em meu campo de trabalho. A grande mudança era considerar o aluno a pessoa mais importante na sala de aulas. Depois disso, vinha a participação, a pesquisa e o professor ouvidor, catalizador e orientador. Vixe! Arrumei um monte de problemas. De uma só vez virei unanimidade, ninguém gostou de minha postura liberal. Alunos, diretores, pastores, colegas, faxineiros, donos de lanchonetes e vendedores de pipoca, unidos me criticavam pelos cantos.

Parte dos meus alunos, entretanto, gostou do método. Até hoje recebo manifestações de carinho e apreço pela experiência que redundou em seres pensantes e autônomos. Aqui em Sorocaba, encontrei algumas das minhas vítimas dos tempos nesses seminários e somos muito amigos. Um deles, quando nos encontramos, foi logo dizendo: Muito tempo depois de ter saído da escola, a ficha caiu, entendi sua proposta e me apropriei dela, usando-a em meu trabalho. Diria ser, essa afirmação, um troféu capaz de iluminar meu ego aos píncaros.

Pouco a pouco, fui deixando as escolas. Nenhuma delas, jamais, solicitou meu retorno. Tomei essa atitude como uma mensagem de: Por favor, desapareça. Ontem, estava mexendo com meus livros e senti saudades daqueles tempos e uma certa nostalgia. Naquele tempo, achei que gastaria o resto de meus dias cultivando novos ministros para o bem da causa cristã. Mas, hoje, os líderes não necessitam desse tipo de preparo. Bastam alguns predicados. Certamente, pensar não é bem um requisito necessário.

Pouco tempo atrás, estava em uma igreja aqui perto, fazendo algum trabalho na área de desenvolvimento e percebi que a hora do culto vespertino se aproximava. O pastor estava a meu lado, demonstrando certa inquietação, quando adentrou ao recinto a pastora. Antes que ela pudesse sorrir, o pastor passou-lhe uma descompostura monumental, da qual não me recuperei ainda, ordenando aos gritos (e o cara tem voz) que ela fosse tomar banho e se arrumar, pois estavam a dez minutos do início do serviço. Depois que ela saiu, perguntei ao anjo daquela comunidade se a mulher não sabia de suas responsabilidades e ele respondeu: Nesse trabalho você tem que deixar bem claro o que cada um deve fazer. Se deixar por conta deles, as coisas não andam.

Assim, posso entender porque estou cada vez mais longe desse universo. Constato, ainda, como os outros segmentos de nossas sociedades tomaram, igualmente, o rumo da bestialidade, do ser incapaz de pensar, das bestas feras ávidas pelos bens materiais e sem o menor pudor em acabar com o planeta. A vitória do individualismo e seu irmão gêmeo: o egoísmo. Claro, há exceções. Você e eu.

Deixe-me profetizar, com pesar, o ensino teológico é uma atividade com os dias contados e o ministro preparado, um ser em extinção. Assim como eu, um extinto professor de teologia.

 lousign

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4 thoughts on “A agonia do meu Ensino Teológico

  1. uau…
    gostei!
    “Alunos, diretores, pastores, colegas, faxineiros, donos de lanchonetes e vendedores de pipoca, unidos me criticavam pelos cantos.” – não, Lou, a alguém você agradava, pode ter certeza! 🙂
    não se consegue agradar a todos…nem desagradar a todos…
    beijos,
    alê

  2. Hoje ouvi umas palavras legais do Tom Zé. A Sabrina Parllatore falou sobre o reconhecimento tardio de seu trabalho como músico. Ele respondeu: “Se apenas no último minuto da vida, no momento da morte, alguém disser que eu estava certo então terá valido a pena”.

  3. O Eugene Peterson tem um livro chamado “O Pastor Desnecessário”. Para ele e a co-autora, a tarefa do ministro não é comandar as pessoas, mas educá-las tão bem até que ele mesmo não tenha relevância, pois as pessoas aprenderão a se virar.

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