A Gruta do Lou

Via Crucis

 

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Via Crucis

Nasci em um lar onde a filosofia mestra era “digno é o trabalhador do seu salário”, levada e encarada de forma literal, ortodoxa e fundamental por minha mãe, fruto de uma criação sob forte influência de uma italiana calabresa adepta do trabalhismo da internacional comunista, tendo como forte opositor o meu pai, um brasileiro típico, artista (pintava, cantava, representava e sabia fazer Origami) e boêmio. Por alguma razão, a qual não sei explicar, puxei mais o jeitão de ser do meu pai, sem as virtudes dele, claro, pois não pinto, não canto, não represento, pelo menos não conscientemente, e não faço a menor ideia de como se deve dobrar papeis com arte.

Por esse jeito paterno de ser valeram-me sérios problemas, maiores caso houvesse sido mais influenciado por minha mãe e seu trabalhismo servil. Não apenas acerca das questões financeiras, mas fundamentalmente na minha auto imagem, autoestima e valorização. Depois de bom tempo aos pés de Zenon, descobri a importância essencial em manter-me motivado, sob o risco de cair em depressão, novamente, usando para tanto a leitura de livros de autoajuda, tão criticados pelo inimigo.

Essas leituras além de me ajudar a manter um mínimo de equilíbrio, obviamente, me fazem pensar em suas propostas de prosperidade e riqueza, como fim último de nossa existência. Ninguém em casa veria de forma negativa um pouco mais de abundância por aqui, se não me engano, talvez somada a momentos mais constantes de paz e tranquilidade.

Entretanto, causam-me espanto algumas declarações atribuídas a nosso Senhor Jesus Cristo, apesar de todas as suspeitas dos modernos ou nem tão modernos assim teólogos liberais. Começo destacando aquela existente no evangelho de São Mateus, “Buscai primeiro o Reino de Deus e Sua justiça e todas essas coisas vos serão acrescentadas”. Cara, essa frase me incomoda muito. Ela consegue atirar as duas filosofias presentes em minha criação por terra de uma só vez. Minha mãe passou a vida trabalhando de emprego em emprego, em empresas públicas e privadas sem nunca ter conseguido superar a barreira da servidão submissa e meu pai fez a mesma coisa, embora tenha optado por métodos mais libertinos e insubmissos.

Depois o Mestre vem com aquela outra frase incomodativa “Quem quer me seguir tome a sua cruz e siga a minha”. Devo ter me perguntado milhares de vezes qual seria o real significado dela. Estaria nos dizendo sobre algo para além da cruz? Por outro lado, incomoda-me sobremaneira a tácita “via crucis” de Jesus, tendo como fator de maior impacto sobre mim, o ritmo lento da cena, caminhando com aquela cruz horrorosa morro acima, como se desejasse pontuar aquele momento como o mais importante e sublime de sua missão.

Sei quanto o John Piper, apelidado de fundamentalista pelos nossos teólogos da missão integral, é adepto de algo batizado como “teologia do sofrimento” e, estranhamente, o Phillip Yancey também faz parte, embora esteja bem longe de ser considerado um adepto da forma de crer mais radical da ortodoxia. Entretanto, há entre eles e eu, imagine, pontos em comum, com destaque para o fato de termos, os três, cruzado a linha do sofrimento e experimentado o tal batismo com fogo, pouco incentivado pelos nossos pastores e igrejas. Evidentemente, eu ainda estou na zona do sofrimento e não cheguei a experimentar a glória de Deus e, muito menos, entrar em seu reino. Não sei se com eles já aconteceu. Como consequência, tampouco recebi as coisas pelas quais todos somos incentivados a buscar pelos livros de autoajuda, e talvez fossem inerentes aos que chegam do outro lado e cruzam a fronteira do sofrimento para a Glória e o Reino.

Mas, por favor, não se envergonhe de mim, estou a caminho ainda. Tenho a minha cruz sobre as minhas costas e sei da importância de cumprir minha missão lentamente. Vocês precisam vê-la para crer. Outro dia deparei com um vídeo de um amigo quase pedindo perdão no púlpito por estar sofrendo, no caso, por ter sido abandonado por sua esposa. Meu, um discípulo com sua cruz é bonito demais, não se envergonhe, pelo amor de Deus. O apóstolo Paulo, outro que cruzou a zona do sofrimento, sabia muito bem que nada disso tem importância diante do caminho mostrado por Jesus e por isso afirmou “Para mim, viver é Cristo e o morrer é lucro”

Já disse e repito, não perco tempo em ouvir ou ler alguém que nunca sofreu. Não sei como uma igreja aceita ser pastoreada por um pastor incapaz de saber quanto dói uma saudade. Infelizmente, nosso povo cristão brasileiro tem sido vitima de pastores mauricinhos ignorantes quanto ao valor da dor na senda espiritual. Nós somos humanos, comedores do fruto proibido e Deus, com lágrimas vertendo em seus olhos divinos, sabe a necessidade de sermos incomodados para alcançar o prêmio Supremo e por isso precisa permitir a cada um de nós enfrentar o seu vale da sobra da morte.

Também não estou fazendo apologia do sofrimento como algo a ser buscado. Entenda-me, apenas sei que ele virá e se você estiver preparado me agradecerá por isso. Desconfie se sua vida cristã não passar por sua Via Crucis.

Claro, tanto melhor se você nunca houver pecado e puder entrar na Glória sem sofrer.

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