A Gruta do Lou

E aí? O final dos tempos chegou?

Peço perdão a todos, mas esse foi mais um vídeo engolido pelo YouTube. Afinal, quem manda confiar em quem não merece confiança.

Logo cedo, encontrei em minha caixa postal, em meio a milhares de outros, um recado da Raquel Jacobson mencionando esse vídeo aqui e me desafiando a escrever algo sobre o tema. Pensei em cozinhar o galo por uns tempos, até o La Niña (causa científica das precipitações acentuadas que estamos presenciando) dar um tempo e cessar de dar motivos para a Rede Globo encher nosso saco com seus carioquismos tendenciosos, nas vozes do paulista Willian Bonner e sua esposa carioquíssima from Portugal, Fátima Bernardes. Mas a coceira aumentou, sem falar naquela história do “pelo sim, pelo não” e resolvi por mãos a obra.

Antes de mais nada, a questão escatológica: O Dr. Russell Shedd, nosso (meu, do Ed Rene, do Bomilcar, Piragini, Ariovaldo Ramos, Leotos, Robson Ramos e da maioria dos caras que estão por aí dizendo alguma coisa que faça sentido, lembrando que toda regra tenha seu Brabo, digo exceção) emérito professor de Novo Testamento no Seminário (FTBSP) que lecionou exegese de Apocalipse algumas vezes e fez a cabeça da rapaziada (havia uma certa porcentagem de moças, inclusas), fora suas incursões nas outras matérias de NT, sempre despertando polêmicas homéricas, principalmente, quando havia pessoal de outras seitas presentes. Não satisfeito, o Dr. Shedd escreveu e editou (ele podia, pois sempre foi peça indispensável em algumas editoras evangélicas importantes, vide Edições Vida Nova e Mundo Cristão) o livro “A escatologia do Novo Testamento” e é dele que resolvi retirar um pedacinho para ilustrar meu modo de ver a coisa. Vamos lá:

“A questão fundamental da interpretação (hermenêutica) explica, em grande parte, a divergência sobre a escatologia que caracteriza o mundo evangélico. Diferenças sobre escatologia na compreensão do significado das passagens bíblicas têm conduzido estudiosos a diferentes posições. Uma das figuras não-evangélicas mais notáveis da geração passada foi Albert Schweitzer. Em seu livro, The Quest for the Historical Jesus, ele desafiou os interpretes idealistas alemães de sua época, acusando-os de entenderem erroneamente (intencionalmente) o que a Bíblia apresenta no campo da escatologia. O modo de Schweitzer interpretar a Bíblia tornou-se popular de novo. Procurou-se, novamente, interpretar o ensino escatológico de Jesus “realisticamente”. Se cremos que Jesus e os apóstolos comunicaram a verdade, concordamos com Schweitzer que devemos entender as palavras deles com o sentido que eles mesmos queriam comunicar, ao invés de simplesmente espiritualizar seus ensinos sobre o futuro. Infelizmente, Schweitzer concluiu que Jesus foi um apocalíptico iludido, que esperava um fim cataclísmico que inauguraria o Reino de Deus. Nada disto, nem nos encanta, nem nos convence. Quem crê em Cristo confia na veracidade do seu ensino.”

Entendo o Dr. Shedd, afinal ele alem de pastor batista, sempre foi sustentado em sua missão no Brasil por juntas e agências missionárias batistas dos EUA e seria anti-ético citar as idéias de Schweitzer, sobre o tema, sem fazer a ressalva que se vê. De qualquer forma, ele não poderia ter sido mais feliz em sua referência. Se você desejar mais realismo para compreender a que estamos nos referindo (o Shedd, Schweitzer e eu) leia os capítulos escatológicos dos evangelhos sinóticos (Mateus 24, Marcos 13 e Lucas 21). Trocando em miúdos, Schweitzer chegou a conclusão que Jesus errou redondamente em todas as suas previsões apocalípticas, afinal até o dia em que ele (Schweitzer) esteve entre nós, nada do que o Nazareno frustrado previu, aconteceu. Aliás, não foi só nisso que Jesus furou em incursões pelo mundo da teologia que, diga-se de passagem, é briga para cachorros grandes, do tipo mais germânico ou norte americano. Só para exemplificar, lembra dos discípulos que o Mestre escolheu e enviou para evangelizar o mundo? Então, os caras voltaram de mãos vazias, não apenas deixaram de fazer os tais discípulos encomendados pelo Galileu, mas não foram capazes nem de expulsar um simples demônio mais ensandecido, coisa que qualquer pastor neo pentecostal faz de olhos fechados e roupas brancas, hoje. Até eu quando era missionário fiz isso. Foi por isso, segundo o Schweitzer, que Jesus abandonou essa estratégia e teria adotado o Plano B, ou seja, resolver ele mesmo a parada de salvar a humanidade. Se você estiver envolvido com algum tipo de discipulado, pode estar perdendo seu tempo.

A grande verdade é que, mesmo Jesus e sua escatologia meia boca, nunca previu um “final dos tempos” cataclismático. Ao contrário ele deixou bem claro que quando víssemos guerras, terremotos, enchentes e essas manifestações de um planeta entediado e cansado de conviver com um bando de aproveitadores oportunistas e sem qualquer respeito ao compromisso de manter o equilíbrio ecológico, ainda não seria o tempo, apenas o princípio das dores. Certamente, referia-se ao fato de que as dores do final dos tempos serão de outra natureza, qual seja, algo mais do tipo ligado à frustração, a angústia ou a solidão, caso não sejamos incluídos entre aqueles que os anjos virão buscar, desde o ocidente até o oriente. Aliás, ninguém entende, em nossos dias, quem os anjos irão buscar no oriente. Que se saiba, não há ninguém digno de ser arrebatado por lá (0nde só há muçulmanos, budistas, taoistas e indianos), pelo menos não segundo o modelo preconizado pela interpretação bíblica que o Dr. Shedd defende. Putz! Quem diria que um dia eu escreveria algo contrário ao que ele diz? Quem sabe os donos do céu enviem um comando para essa região, pelo menos, formado de anjos negros, judeus e latino americanos, se é que anjos tem algum formato minimamente aceitável.

Para encerrar, quero tranqüilizar a todos que moram nas regiões certas (aquelas que não alagam, nem desmoronam ou tremem) informando que dificilmente algo catastrófico vos sobrevirá nessa geração. O princípio das dores ficará, de novo, com os imprudentes que escolheram mal onde viver, morar e trabalhar. Outro detalhe incluso nas previsões de Jesus é que ele jamais voltará, digo, pessoalmente, mas ficará aguardando seus eleitos (para delírio dos calvinistas) nas nuvens, pois não pretende sujar seus pés novamente em solo tão poluído, ou algo assim. Outro detalhe é que nesse dia, o sol ficará vermelhinho, cor de sangue mesmo e a lua não dará as caras, deixando o ambiente bem penumbrado, para êxtase dos mais boêmios. E sempre tem aquele argumento do Barth, a quem reputo grande respeito, embora seja mais um cachorro grande, que esse arrebatamento já possa ter acontecido e nós sejamos o remanescente esquecido, vivendo sem Deus para nos guardar, mas crendo que o arrebatamento ainda virá. Haveria inferno pior? Ele pergunta. Isso responderia à grande parte de nossas dúvidas, certo?

lousign E aí? O final dos tempos chegou?

Comments

comments

Comentários

  1. Falam mal do Calvino – até eu! – mas o cara era tão inteligente que o único livro da Bíblia sobre o qual ele não escreveu nada foi justamente Apocalipse!!!
    Tem outra historinha, que meu velho pai conta, mas essa eu vou escrever no face, ok?

    Tá certo, manda lá. Será que Calvino não tinha parentes em São José dos Campos?

  2. “Se levantará nação contra nação, e reino contra reino, e haverá fomes, e pestes, e terremotos, em vários lugares.”

    Não sei, acho que – por enquanto – só chegou para o Haiti-Soleil, favelão de Porto Príncipe.

    O resto é circo, e como gostamos de um ninho…

    Abraço, Lou.

    http://saotodascoisas.blogspot.com/2010/01/tremor.html

    No Haiti ocorreu um terremoto, uma das ocorrências chamadas por Cristo de Princípio das Dores, mas sem ser o fim, ainda. Agora, sem dúvida, tudo vira um grande circo, regado ao bom e velho Ninho. 🙂

  3. eu fico com a opção de que Ele já tenha voltado por aqui…e me livrado do fogo do inferno.
    quanto ao final dos tempos,além das profecias bíblicas,e suas diversas interpretações e cronologias…existe uma infinidade de teorias pra acabar com esse nosso mundinho.
    Uma bem recente:http://twitter.com/SarahSheeva

    Quanto a lugares onde o fim do mundo já aconteceu,além do Haiti,eu colocaria a Faixa de Gaza,os acampamentos no Sudão….(é melhor eu organizar isso em ordem alfabética).

    Lou,obrigada

    Não, não, ele não voltará por aqui. Estará nas nuvens enquanto os anjos fazem o trabalho sujo. Se os tais escolhidos já foram arrebatados você está bem no meio do fogo do inferno, ou melhor, no meio da água do inferno. Insisto, o que houve no Haiti foi um terremoto, igual aos que sacodem o Japão toda hora, mas que lá teve proporções catastróficas. Tampouco guerras e rumores de guerra significam o fim. Quando vier o fim, de fato, não creio que será em forma de terremoto, mas de grande angústia, por não ser um dos escolhidos.

  4. Escatologia é entretenimento para pastores desocupados. Estes fariam melhor se cuidassem de suas ovelhas e olhassem para o mundo ao redor, ao invés de se esconderem e se divertirem na construção de teorias mirabolantes, com suas cronologias malucas e conspirações mundiais.

    Mas… existe pastor ocupado? 🙂