A Gruta do Lou

Prática Democrática a partir da escola

Filme Sete Vidas eu Tivesse que conta o que foi o Ginásio Vocacional

 

“Podemos discutir com os jogadores qual será a nossa relação com a imprensa, mas não sobre quem jogará”.  Frase do Técnico de Futebol Mano Menezes quando dirigia a equipe do Corinthians”.

A chamada “democracia corinthiana” foi responsável por levar o time a vencer um campeonato paulista em 1977, após 23 anos sem ganhar nada, embora essa notícia vá desagradar a muitos, não foi a única e muito menos a primeira experiência desse tipo nos meios esportivos.

Treze anos antes, e poucas pessoas sabem disso, houve outra experiência, muito mais ampla e abrangente. Aconteceu com nosso time de Handebol, lá no Ginásio Estadual Vocacional Oswaldo Aranha do Brooklyn, liquidado pelo governo militar em 1969, com direito a invasão da polícia militar e tudo. Acho que gostaram do sucesso de nosso time, ao ganharmos o campeonato paulista colegial de 1967, acho.

Dois ou três anos antes, os professores de Educação Física da escola, liderados pelo professor Frank montaram duas equipes de Handebol para disputar o campeonato colegial em duas categorias, no masculino e no feminino e não conseguiram classificar nenhuma delas, perdendo todos os jogos disputados.

Quando questionamos se não voltaríamos a participar do campeonato, eles nos desafiaram a montar um time, sim nós mesmos, os alunos e eles nos dariam o apoio necessário. Nessa altura os professores eram o Nelson Sanches e o José Carlos Rizzo.

O Alain Jean Pierre Baldacci e eu assumimos a frente da coisa, não como mandachuvas mas como os caras dispostos a servir aos demais. Arrumamos um novo jogo de camisas, pintamos as linhas apagadas da nossa quadra de esportes, trocamos algumas lâmpadas queimadas e construímos a agenda contendo os dias de treinos e jogos, além de convidar o grupo com as condições ideais para fazer parte do time.

Os professores de Educação Física não deram palpite em nada, nessa fase. Procuramos todos os alunos com certo biotipo e alguma experiência naquele esporte, ainda pouco conhecido entre nós. Então começamos a preparação,  no começo, bem que o Willian Wack, um dos nossos meias, reclamou de nosso trabalho, me chamando de radical e unilateral, depois de uma bronca por causa de atraso para iniciarmos um treino. Mas depois ele se integrou plenamente, percebendo  que nosso desejo era a participação de todos em regime de igualdade, creio.

Não queríamos decidir tudo, era muito mais legal contar com a participação geral, pois isso melhorava muito o nosso desempenho nos jogos. Que me lembre, nunca houve queixa em relação a uma escalação ou substituição. Naturalmente, havia unanimidade quanto a isso. Além do Willian, Alain e eu, faziam parte o Eduardo Dreyfuss, o Chucra (Heinrich Heinz), Iglésias, Ferreira, Wilson Sorrentino, Eduardo Marafanti e outros saudosos colegas.

Em poucos meses, abolimos as hierarquias, o rio correu para o mar e fomos buscar a primeira conquista esportiva daquela escola.

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Esse evento não foi uma fato isolado no Vocacional. Esse tipo de abordagem era a regra. Participei da escola durante seis longos anos e só houve evolução. Claro que alguns professores e alunos ficaram pelo caminho por terem dificuldade em adaptar-se, mas o saldo foi amplamente favorável ao êxito. Nosso melhor argumento em nosso favor foi termos sido banidos pela pelos militantes do governo  militar.

O Sistema Vocacional de Ensino, com seis unidades no estado de São Paulo (Barretos, Batatais, Rio Claro, Americana, São Caetano e Capital) incluía construir a pauta do semestre,  o livre pensar, o estudo do meio, trabalho em equipe e autoavaliação, além de democracia no esporte e em todas as suas atividades. Poderia ser uma opção à educação, se repensado para nossos dias e de olho no futuro em tempos de revolução da informação.

Entre outras atividades, construímos um Governo Estudantil nos moldes do governo vigente no nosso estado, com governador, vice e assembléia legislativa. Já escrevi sobre isso, mais detalhadamente.

Ainda hoje, o sistema de ensino em São Paulo e em todo o Brasil não conseguiu assimilar nem metade do que o Sistema Vocacional já fazia na década de sessenta.

Temos um grupo no Facebook chamado GVocacional com a participação de muitos dos remanescentes dessa experiência, mas aberta a quem desejar fazer parte, aqui.

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