A Gruta do Lou

O Palácio da Memória

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“Transporei, então, esta força da minha natureza, subindo por degraus até Àquele que me criou.

“Chego aos campos e vastos palácios da memória onde estão os tesoiros de inumeráveis imagens trazidas por percepções de toda a espécie. Aí está também escondido tudo o que pensamos quer aumentando quer diminuindo ou até variando de qualquer modo os objetos que os sentidos atingiram. Enfim, jaz aí tudo o que se lhe entregou e depôs, se é que o esquecimento ainda não absorveu e sepultou.”

Confissões de Santo Agostinho Livro X – Cap. VIII

Quero lhe contar sobre o Palácio da Memória. Quando tinha lá meus oito anos de idade, fui levado a um oculista. Minha avó materna, uma italiana da Calábria, trabalhava no Hospital Municipal, quando aquilo ainda podia ser chamado de “hospital” e era muito bom, onde passei por duas cirurgias desnecessárias, a primeira foi a retirada de minhas amídalas, segundo o médico, elas eram a razão das minhas gripes e, mais tarde, minha avó em conluio com minha mãe, conseguiram uma cirurgia de fimose que precisei refazer antes de casar, vinte e tantos anos depois. Enfim, o Dr. Dos zóios avaliou os meus olhos no consultório particular e seu veredito foi o seguinte: o Luiz Henrique só precisará usar óculos aos quarenta e cinco anos.

Então não usei óculos, a não ser os óculos de sol. Um dia após o meu aniversário quando completei quarenta e cinco anos, percebi que estava lendo com certa dificuldade. Atravessei a av. Domingos de Moraes, ali perto da estação Paraíso do Metrô e entrei no consultório de outro Dr. Dos Zóios e ele me receitou óculos para a leitura. Esses caras pertencem a alguma facção das quais somos as vítimas ou algo parecido. De lá pra cá só piorou. Agora ando com dois e às vezes com três óculos, um para ler, outro bifocal e outro para trabalhar no computador, com distância diferente para perto.

Igualmente, ouvi muitos idosos ou mais idosos quando eu não era ainda um idoso e ria da dificuldade deles em lembrar as coisas, me dizendo: você chega lá. A maioria vaticinava essa desgraça para os sessenta e cinco anos, no meu caso em 2016. De repente você não lembra a atriz do filme Dr. Jivago, o melhor filme que já assisti. Cada nova namorada, lá ia eu ver o filme. Claro que a namorada da vez não sabia quantas vezes já havia assistido. Me lembro ter assistido em cinema, oito vezes. Depois adquiri um DVD do filme e nunca mais levei nenhuma namorada para assistir, pois já estava casado. Opa, lembrei, era a Julie Cristie. O Dr. Jivago foi protagonizado pelo ator… hum… lembrei, foi o Omar Sharif, muito bom, também.

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Mas chegou a hora de acabar com esse mito. Nós esquecemos desde de sempre. Estava lá pelos meus dezenove ou vinte anos e terminei o namoro. Pouco tempo depois, comecei um novo namoro. No primeiro encontro de sábado, sai de casa com o nosso carro e me dirigi para a casa da nova namorada. No caminho me distraí com alguma coisa. Sempre fui mestre em ligar o piloto automático do carro enquanto estou sonhando acordado. O problema foi não ter alterado as rotas, trocando os endereços da antiga para a nova namorada e acabei na casa da ex. A ex-sogra saiu rápido para me atender e não deu para disfarçar. Desci do carro, cumprimentei-a e perguntei por alguma coisa que certamente eu não esquecera lá. Tudo em mim me traia naquele momento. Carro lavadinho, roupinha toda caprichada, meu Deus, que vergonha. Tive muitas outras situações de esquecimento. Perdi a conta das chaves perdidas, documentos, agasalhos e vai por aí.

Sem perceber, utilizamos certos meios para resolver um possível mico. Na idade da sapiência, os tais meios precisam multiplicar-se. Primeiro de tudo, entre no palácio das memórias e certifique-se de ter entrado. Alguns até fecham os olhos para isso e esperam alguns segundos até começar a ver as coisas por lá. Se estiver sendo pressionado, não fale se não for absolutamente necessário, prefira o velho subterfúgio: vou pensar no assunto.

O pastor Kenneth Hagin, o preferido dos presbiterianos, conta, em um de seus livros, que o pai dele parou de falar, a certa altura da vida. Assim resolveu o problema de uma vez por todas. Caso precise mesmo falar, ensaie mentalmente uma frase curta, nunca mais de três palavras. Não importa se não lembrar uma tal palavra, use a primeira a aparecer. Nunca comece uma frase se não tiver certeza de já a ter pronta para falar.

Minha filha pediu para um amigo o nome do medicamento usado pelo pai dele  para o problema do esquecimento. Pesquisei no São Google e descobri o tanto de contraindicações do medicamento.

Cabe aqui uma informação importante de um véi nada chegado a medicamentos. Uma forma para burlar certas regras éticas farmacêuticas é lançar o medicamento após as experiências básicas e ficar de olho no mercado. Se umas dez vítimas tiveram taquicardia ou braquicardia, pronto, na próxima fornada aparecerá a contraindicação na bula e o aviso: procure seu médico. Quando um medicamento, como esse, tem tantas contraindicações (mais de cem) os médicos começam a esquivar-se de receitar. Se houver óbitos por uso do medicamento, caberá ao órgão responsável proibi-lo.

O interessante é saber o fato de Santo Agostinho ter chegado a essa fase da vida e abordá-lo brilhantemente. Gosto muito da frase dele: Enfim, jaz aí tudo o que se lhe entregou e depôs, se é que o esquecimento ainda não absorveu e sepultou.”

O finado escritor brasileiro Pedro Nava foi um memorialista inigualável. Seu patrimônio escrito é sem igual a ponto de merecer um Prêmio Nobel. Mas ele não era comunista, então… Estranho um escrito especializado em memórias, né?

Nem o baiano Jorge Amado, um dos maiores escritores da diminuta lavra de escritores brasileiros dignos de um reconhecimento desses, não conseguiu seu Nobel.

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O único escritor de língua portuguesa a conquistar tal honra foi o português José Saramago. Inclusive, esses dois eram amigos o Amado e o Saramago. Conta a lenda, Jorge Amado já estava utilizando uma das minhas receitas para esquecimento, ou seja, não falava mais por causa dos esquecimentos. Quando o Saramago ligou para contar-lhe a boa nova, ele tirou o telefone da mão da esposa e falou com o amigo com lágrimas nos olhos de alegria.

Coitado nunca soube, mas o amigo morria de medo do Jorge Amado receber o prêmio antes dele, pois estava ciente do amigo ser um escritor muito melhor em relação a ele e por isso, também, havia se aproximado dele.

Obviamente, foi melhor o Saramago ter ganho o prêmio, além de ser europeu era comunista e Amado não era uma coisa e nem a outra, apenas um excelente escritor, melhor de tantos outros prêmios Nobel de literatura.

Mas vos ler um pouco mais sobre “O Palácio da Memória” de Santo Agostinho:

“Quando lá entro mando comparecer diante de mim todas as imagens que quero. Umas apresentam-se imediatamente, outras fazem-me esperar por mais tempo, até serem extraídas, por assim dizer, de certos receptáculos ainda mais recônditos. Outras irrompem aos turbilhões e, enquanto se pede e se procura uma outra, saltam para o meio como que a dizerem: -Não seremos nós? Eu, então, com a mão do espírito afasto-as do rosto da memória, até que se desanuvie o que quero e do seu esconderijo a imagem que aparece à vista. Outras imagens ocorrem-me com facilidade e em série ordenada, à medida que as chamo. Então as precedentes cedem o lugar às seguintes e, ao cedê-lo, escondem-se para de novo avançarem, quando eu quiser. É o que acontece, quando digo alguma coisa decorada.”

Olha só, se chegou na idade do Palácio da Memória, não se preocupe. Trata-se apenas de mais uma era de sua vida. Você descobrirá o método melhor para resolver isso. Alguém já explicou, cientificamente, as trocas de neurônios ocorridas nos nossos cérebros. Essas trocas necessitam de espaço e a técnica inclui dispensar os neurônios com prazo vencido, assentando a seguir os novos neurônios. Essa troca acaba levando embora muitas lembranças, precisamente aquelas já esquecidas e, portanto, sem maiores importâncias.

Vivemos em um época com recursos excelentes e, ao contrario dos nossos antecedentes, dispomos de ferramentas com as quais eles nunca conviveram. Nós temos o São Google, o mais importante guardador de nossas memórias. Outras mídias também nos ajudam quando não lembramos de alguém ou algo. Suponho uma evolução inimaginável nessa área. Você já deve ter visto algum filme onde o personagem consegue ter todos os seus interesses no seu Smartphone ou algo nessa linha.

Pessoalmente, descobri a técnica de escrever para não enferrujar. Para mim ajuda muito. Bebidas alcoólicas e destiladas são grandes inimigas quando está mais difícil acessar nossa memória. Repressores (gente chata, hostil e desprezível) será preferível há muitos quilômetros de distância, nessa hora.

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