A Gruta do Lou

Sobre dirigir automóveis


Dentre várias decepções da vida, dirigir bicicletas, motocicletas e automóveis sempre foi um ponto positivo para mim. Aí por volta dos 3 ou 4 anos, íamos de ônibus para o trabalho de minha mãe (no parque infantil D. Pedro II da prefeitura) e a condição era sentar o mais próximo possível do motorista daquela hora, sem isso não rolava.


Nesse tempo, meu pai tinha um Jeep Willys (não confundir com o deputado) 1951 e eu manobrava a direção enquanto meu pai se encarregava de engatar as marchas, acelerar e brecar o carro.


Aos sete anos (agora meu pai tinha um Citroen 1951), já na zona sul, resolvi tirar o carro da garagem sozinho, coisa que minha mãe nunca foi capaz de fazer. Era uma garagem subterrânea e não era muito fácil sair dela com o carro. Assim foi, todos os dias esquentar o motor e tirar o carro da garagem.


Mudamos para uma casa com garagem plana, no Jardim Prudência, subdistrito de Santo Amaro e o carro agora era um Dauphine 1960 e eu tinha 9. Minha mãe começou a trabalhar na Avon como promotora e eu tinha que ir junto no começo para instruí-la a dirigir no dia-a-dia na prática. Sem migo ela não saia do lugar. Claro que eu cobrava pelo serviço.


Em 63, tínhamos um Dauphine 1962 e um Fusca 62. Minhas obrigações mudaram com minha mãe capaz de dirigir sozinha. Passei a fazer as compras diárias de carro, geralmente, o Dauphine e um aumento na mesada. Numa dessas, dei de cara com uma viatura da polícia na porta da venda (uma loja que comercializava alimentos e outras coisinhas). Os policiais não acreditavam no que viam e fizeram questão de me levar até em casa comigo na direção.


Aos 18, tínhamos um fusca 1968. Era 1969, nos meus 18 anos porque era o dia do meu aniversário e no meio da festa fui levar o Euclides para casa. No caminho, uma perua Chevrolet cheia de gente dentro passou a nos perseguir e só parei na frente da casa do Clidão. Sai do carro com uma metralhadora apontada para mim. Mostrei os documentos do carro para os caras (estavam dizendo que eram da polícia e eu achei melhor não mostrar minhas dúvidas, naquele momento). Então, pediram minha carta (naquele tempo, era assim que a carteira de habilitação chamava). Obviamente esse documento ainda não existia para mim e eles resolveram me levar até em casa para buscar meu pai e irmos para a Delegacia do Detran para resolver a treta.

Dias depois, com uma boa ajuda do Edgar (o avô dele era o diretor daquela repartição pública) fiz o exame e tirei minha carta no mesmo dia (naquele tempo, levava meses para receber a carta após passar no exame). O Edgar fez questão de me entregar a carta em mãos, lá mesmo no escritório do avô dele.


Uma vez, em um treino de derrapadas aleatório na frente da casa do Clidão*, ele me aconselhou a tentar a Fórmula 1. Nunca fiquei sabendo se ele estava falando sério ou me zuando.

De lá pra cá, foi só alegria. Como nunca fui bonito, então, ter charme, dinheirinho pro cheesburguer, carro e dirigir me ajudou bem com algumas garotas (elas não gostavam muito de ônibus e táxis).


  • Clidão era o pai do Euclides, já falecido. Era um craque na direção, além de correr com automóveis, andava em duas rodas e derrapava como ninguém.

Em 1981, fiz uma viagem missionária na África. Passei por três países (África do Sul, Moçambique e Malawi). Em Moçambique, em tempos da ditadura marxista-leninista imposta por Samora Machel, viajamos de 400 kms a partir de Maputo (A Capital) para participar de um encontro histórico e clandestino de pastores, pois o regime de Machel havia decretado o ateísmo e com isso fim das igrejas por lá. Mas eles ainda estavam sob o conflito armado contra os contrarrevolucionário e não tinham como liquidar as igrejas de vez.

I don't do art for a living, neither for perso...
I don’t do art for a living, neither for personal nor professional propaganda. I don’t make any drawings for money. Thanks. (Photo credit: Wikipedia)

Fazia uns dois anos que não acontecia uma reunião como aquela e a notícia da nossa presença entre eles havia corrido, apesar das dificuldades. Saímos de madrugada usando o carro da Sociedade Bíblica de Moçambique, um Land Rover Defender a diesel. O tanque esvaziou no caminho, mais ou menos na metade do percurso e paramos no posto para abastecer, mas não havia combustível lá há meses. A saída foi comprar uma quantidade de diesel de algum caminhão, mas eles não eram abundantes, naqueles dias. Ficamos parados umas duas horas até aparecer o caminhão com Diesel sobrando enviado por Deus. Isso atrasou a reunião pois eles não começariam antes de chegarmos.

Quando a reunião terminou nos serviram um jantar e depois iniciamos a viagem de volta, só que os pastores providenciaram uma quantidade sobressalente de combustível e isso não seria um problema. Quando paramos para reabastecer o veículo surgiu um problema. O Félix, diretor da SBM dirigira desde nossa saída de Maputo e estava exausto. Alguém precisava rendê-lo. Um dos meus amigos me indicou para a tarefa sem pestanejar e todos concordaram, eu fui voto vencido. Esse veículo, além das dimensões avantajadas, tinha a direção do lado direito e o câmbio para ser manipulado com a mão esquerda, pois me Moçambique a mão de direção é a inglesa. Mas não teve jeito e dirigi, na boa, até Maputo. Ah, o país estava em guerra e havia a possibilidade de sermos alvejados por algum míssil desgovernado. Enfim, não estávamos na lista dos mortos naquele dia, graças a Deus.

Não é à toa meu desejo de ainda ter um Land Roover Defender velhão, mas com direção de gente, ou seja, do lado certo.

Desculpe ter me alongado. É um problema que tenho e já estou tentando resolver, mas ainda não consegui. 🤭🤭

Ops: Originalmente escrito para um Grupo do Facebook, em forma reduzida e sem imagens.

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