A Gruta do Lou

Por que não escrevo mais?

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Essa pergunta surgiu de todos os lados, nos últimos dois anos, quando minha produção na arte de escrever diminuiu sensivelmente. Com isso, venho adiando responder a essa pergunta, também.

Primeiro, não é verdade que deixei de escrever. Quem anda pelo Facebook e Twitter sabe muito bem o quanto escrevo nessas porcarias úteis. Mas me tornei mais amargo porque me vi obrigado a sucumbir a essas geringonças. Ando falando, digo, fazendo ousadas asseverações sobre o que não entendo, ou seja, de política, especialmente em um país onde ela é exercida sob as práticas de mentir e enganar. Como me disse um ex-político que virou morador de rua lá em Sorocaba: “Não fique triste, ninguém, nem eu, entende porque é tudo mentira nessa área, como em tudo por aqui”.

Também é fato conhecido o quanto nossos blogs foram desprestigiados em favor dessas horrorosas mídias sociais. Mas pelo menos, ficou claro qual era o verdadeiro interesse da macacada, ou seja, relacionamento. Isso é importante, embora vivamos em uma terra onde mana banana e água, e todo mundo diz em prosa e verso que somos os reis do relacionamento, provavelmente mais uma mentira. Na verdade, mostramo-nos carentes de afagos, beijinhos e sexo. Engana-se quem pensa ser diferente para os caras que buscam as igrejas ou a autoajuda, em minha opinião.

Evidentemente, a partida precoce de nosso filho me abateu profundamente. Uma vez um aluno meu do seminário me perguntou porque eu tinha tantas olheiras. Seguramente eu não esperava uma pergunta imbecil dessas e isso ocorreu enquanto ele ainda vivia. Por mais que revire a minha memória não me lembro o que respondi, provavelmente fui irônico com ele, sem nem ao menos considerar que a pergunta poderia até ser um gesto de bondade. Mas não penso ou acredito que esse fato terrível que se abateu sobre nós seja boa desculpa para a interrupção das minhas escritas. Escritores são seres muito complicados e, via de regra, quanto mais se deprimem, melhores escritores tornam-se. Isso se não se suicidarem antes. Fique tranquilo, com já declarei antes, sou suficientemente covarde para ser capaz de pôr fim à minha vida, quase inútil.

Para ser franco, a melhor parte de escrever não é ler um texto depois de tê-lo acabado e regozijar-se com minha conhecida capacidade inacreditável de produzir algo tão incrível de bom. Aliás, isso pouco se me dá, pois dificilmente gosto do que escrevo, a não ser quando leio muito tempo depois e me pego pensando: “Nossa, isso até parece bom!” O que mais importa mesmo é saber quantos desavisados leram meus textos, em que pese minhas declarações enfáticas de que escrevo para mim mesmo. Copiei isso do Brabo, sem cerimônia. Talvez ele o faça, de verdade. Há muitos indícios nessa vida de que o cara caminha resoluto para ser um dos raríssimos monges em terras brasilis. Embora seja bom continuarmos cautelosos, ele é brasileiro e escreve como poucos.

Dizem que Deus criou a melhor terra do planeta aqui e depois colocou nela o pior povo da Terra. Coitado de Deus, não haveria acusação mais injusta, insana e incorreta do que essa. Foram os portugueses, ajudados pelos holandeses, alemães, franceses, norte-americanos, italianos, espanhóis, japoneses mais as igrejas evangélicas e católica os verdadeiros culpados, se não me engano. Todos eles enviaram para cá a escória, com meus avós e bisavós inclusos. Deu nisso, entregamos a Copa e jogo contra a Alemanha e nem sabemos por quanto, e caminhamos a passos largos para entregar o resto, também. Ninguém mais, nem os cubanos ou os russos seriam capazes de tamanha picaretagem. No ano que vem, ficarei muito triste se a Portela (a minha escola de samba predileta) não vier para a avenida com o enredo “Transamos com os alemães” e, dessa vez, com as baianas vestindo sós as famosas saias, sem nada da cintura pra cima.

Depois os caras querem que nós ainda continuemos escrevendo como se nada houvesse acontecido.

Mas ainda acalento o desejo de continuar escrevendo e muito. Escrever é igual gostar de muié, diz um outro amigo escravo das duas, da escrita e das muié: “Quanto mais apanha ou é enjeitado mais a gente gosta”. Não será a falta daqueles quinhentos ou seiscentos leitores dia que irão me derrotar, bando de traidores e amantes de mídias fáceis onde não é preciso pensar para ler. Sei muito bem que vocês leem essas porcarias, mas é no meu blog que estão pensando. Isso sim é traição deliciosa.

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Comentários

  1. Se já é difícil que alguém nos leia em nossos blogs, tanto mais que nos comente. Enfim, li e comentei pra contrariar as expectativas :). Mas deu saudade daquele tempo anterior ao surgimento das malditas taimelaines.

    Abração.

    1. Ah, de fato, nós vivemos um tempo primoroso e uma experiência única, se bem que curta, pela razão apontada por você. De qualquer forma, acho que vale a pena escrever para os dois ou três leitores teimosos e recalcitrantes, tanto aqui quanto na Trilha. Valeu Tuco, obrigado.