A Gruta do Lou

Missão Portas Fechadas

Portas Fechadas

Muitos anos depois, já introduzido ao centro daquele escritório moderno, parecido com uma agência de propaganda ou moda, uma secretária bem fashion me conduziu à sala do secretário executivo atual (o cargo agora é gerente executivo), o Marcos Taborda, após um cumprimento rápido e meio constrangido, avisou que só dispunha de trinta minutos para mim e tratou de desculpar-se pela demora em agendar aquela reunião, mas usou a desculpa da recém viagem à África e o efeito da diferença do fusos horários, de novo como justificativa.

Acho que ele não foi capaz de calcular, quando planejou como me enrolar, a minha improvável experiência na África. Só há dois tipos de pessoas capazes de ir ao continente esquecido por Deus, missionários e o pessoal da área de comercio exterior. A maior parte dos países africanos está importando muito, desde que os fornecedores estejam dispostos a pagar boas propinas aos políticos e funcionários dos governos locais. Quanto aos missionários, eles continuam indo, mas a maioria corre esse risco calculado com praticamente um objetivo, engordar seus currículos eclesiásticos. Mas eu não dei muita trela a essas bobagens e encerrei aquela introdução constrangedora com uma oportuna piada qualquer e um elogio falso sobre um horroroso quadro na parede da sala, ao qual enalteci como se fosse um Hembrandt autêntico. Finalmente, ele me convidou a sentar e me ofereceu água e/ou café, criativo como nunca.

O Marcos Taborda é um ex-diretor de comércio exterior com duas ou três grandes empresas multinacionais no currículo. Foi-se o tempo que as agências missionárias eram dirigidas, quase sempre, por pequenos imbecis em administração, matemática financeira, contabilidade e propaganda, mas gigantes espirituais, do tipo que te receberia com aquela ultrapassada frase convidativa: “Que tal orarmos antes de começar nossa conversa?”, e não raro, ajoelhavam para tanto, obrigando o convidado a fazer o mesmo. Claro que isso não muda quase nada em termos práticos, mas empresta uma aura de respeitabilidade inigualável, sem dúvida.

Enquanto ele fazia um breve resumo da espetacular performance da Missão Portas Abertas nos últimos meses (evidentemente, após a sua chegada) em termos arrecadatórios, deixei minha mente perder-se em devaneios e lembranças do tempo em que trabalhei na Missão.

Meu trabalho era levantar fundos (eufemismo antiquado para captar recursos) e propagar o ministério do Irmão André, um personagem inventado para servir de âncora no projeto publicitário, tendo por base um missionário holandês muito audacioso e capaz de ter feito missões nos países da chamada Cortina de Ferro, um pedaço do planeta anexado pela Rússia e denominado URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), após o término da Segunda Guerra Mundial e encerrado em 1989 com a queda do Muro de Berlim e o esfacelamento da URSS. Entre outras providências, Stalin o ditador russo, na ocasião, tratou de diminuir as liberdades religiosas, seguindo os ensinamentos do germânico, radicado na Inglaterra no século XIX, Karl Marx com sua máxima: “A religião é o ópio do povo”. A Rússia precisava do povo cem por cento focado no trabalho para produzir armas, bombas, misseis, aviões, etc., a fim de conquistar o mundo, um secreto sonho acalentado por ele e seus sucessores, portanto era melhor não deixá-los desviar o foco com bobagens religiosas. Ao que parece o sonho ainda não morreu.

Também lembrei dos meus tempos na Missão, quando nosso escritório até tinha alguma cara de uma organização para-eclesiástica séria, apesar do Roberto Jackob chama-la de “A Firma”, insistentemente. Minha estratégia, na época, era fazer o trabalho missionário ignorando o Roberto, embora ele fosse nominalmente o chefe. Durante quase três anos consegui êxito, até que alguém (a mulher dele, provavelmente) o alertou de minha astúcia, então ele arquitetou um plano maquiavélico para me mandar para o olho da rua. Ele obteve êxito com a complacência da diretoria da época e do Dr. Dale, meu mentor desavisado, entre eles vários dos meus amigos. Alguns ainda tomam café comigo, de vez em quando e/ou fazem parte dos meus amigos no Facebook. Nenhum deles jamais me contou qual foi o argumento utilizado pelo infeliz para convencer a todos eles. Suspeito que tenha sido algo na linha do politicamente incorreto, literalmente, do tipo: descobri que ele é comunista, uma característica inaceitável numa missão anticomunista e hoje, anti-islâmica, também.

Foi aí que voltei do transe e ao Marcos Taborda, ainda tagarelando inconsistências às quais não tinha o menor interesse.

Ele ainda estava matracando suas vantagens quando acordei e lhe surpreendi com uma pergunta nada oportuna: “Marcos, atualmente vocês estão captando recursos para que ou quais projetos?” Surpreso ele começou a enumerar (o Pr. Inácio diria: elencar) os projetos nos quais a Open Doors Mission está envolvida, a maioria no Oriente Médio. Qualquer parentesco com os interesses norte-americanos na região seria mera coincidência, evidentemente. Então sapequei outra: “Algum projeto nacional? Para essa, nem esperei pela resposta.

Já desejando nunca ter estado ali, perguntei sobre os métodos e médias atuais de arrecadação, qual o tamanho atual do cadastro de doadores e os alvos. Depois de ligeira engasgada ele descreveu a situação, mas em poucas palavras, claramente evitando me dar detalhes inconvenientes ou até nem os dominasse. Em seguida levantou da cadeira e pediu para a secretária providenciar algum material de propaganda para me presentear (os chamados presentes de grego), evidentemente, dando início ao ritual do bota fora o convidado bem chatão.

Compreendendo o incomodo do cara, levantei já puxando a minha mochila para as costas. A jovem mulher trouxe os espelhos, digo chaveiros, folders (noutros tempos folhetos), etc., e ele os estendeu a mim.

Se minha intenção era construir algum tipo de relacionamento rentável ali, uma sugestão de um daqueles amigos que na época de minha defenestração também era da diretoria, dos dois pontos de vista, do eclesiástico e do marketing, não haveria nenhuma possibilidade de ambas as partes, devido ao nosso total e irreparável antagonismo em termos de visão. Sendo assim, só restou-me lamentar por perder trinta minutos (talvez tenham sido quarenta mais o gasto com ida e vinda) do meu já escasso resto de vida.

Ops: Alguns nomes foram substituídos por nomes fictícios por razões óbvias e outros nem foram mencionados pelas mesmas razões.

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