A Gruta do Lou

Quarta-feira, Abril 26, 2006

Traidor de Jesus

O Evangelho de Judas

Nesses dias em que se fala do Evangelho de Judas, escandalizando com a possibilidade de Judas ter sido o preferido de Jesus, para horror daqueles que já se acostumaram à exclusão de Judas, fiquei pensando como eu teria me portado se estivesse com Jesus naqueles dias. Então, vesti minha roupa de Kalil e dei um pulo lá (Ev. Lucas Caps 22 e 23) para ver como seria.

– Estávamos no andar superior, em uma sala ampla e toda mobiliada. Pouco antes da celebração, Ele me olhou e perguntou: “Em que pensas? Diga-me agora.” Então, respirei fundo e comecei: Acho que o senhor está sendo radical e unilateral. Para que levar isso adiante? Certos momentos da vida, é preciso ter jogo de cintura. O senhor mesmo disse: “Na vida tereis aflições”. Por que o senhor não move uma ação por danos morais contra os sacerdotes e os mestres? Deixe a justiça cuidar disso. Confie na justiça. Por que dar a cara a tapa? A gente tem que engolir sapos, às vezes. De repente o senhor ganha a ação e recebe uma boa bolada. Põe algum no bolso, paga as dívidas e, se quiser, divide o resto com o pessoal. O senhor pode sair daqui agora com um boné e uns óculos escuros e se internar em uma casa de recuperação, lá em Nazaré. Ninguém vai reconhecê-lo ou acha-lo. Quando a coisa esfriar o senhor volta. Com mais sutileza. Quem sabe, poderá criar um blog e ir falando as coisas em sentido figurado, para não dar na vista.

Ele não deu resposta. Olhou-me com aquele olhar e dirigiu-se para a mesa, apontando o lugar onde eu deveria sentar. Bebi do cálice e comi do pão que Ele serviu, durante a ceia.

A seguir saímos todos em direção ao monte das Oliveiras. “Ele olhou em direção a todos e disse: “Orem para que vocês não caiam em tentação.” Afastei-me um pouco do grupo. Sentia medo. Não sabia bem porque. Mas, minhas pernas tremiam. Achei uma pedra grande e coloquei-me, estrategicamente, atrás dela. Ouvi quando Ele orou: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice.” Ele olhou em minha direção. Mesmo, onde eu estava, percebi que ele não me perdera de vista. De repente chegaram muitos homens. Consegui ver alguns soldados do templo, sacerdotes, um monte de gente. Houve muita gritaria e empurra – empurra. Minha visão não era boa, de onde eu estava. Mas, não quis me expor. Tratei de cuidar de minha pele. Jesus foi algemado e levado. Passou perto de onde eu estava e me olhou. Na minha cara estava estampado o “Eu bem que avisei.” Nas horas seguintes, mantive-me, prudentemente, à distância. Fiquei sabendo que Pilatos estava convocando o povo para uma reunião. Aproveitei e misturei-me ao povo para assisti-la. Estava longe, mas, pude ver Jesus ao lado de Pilatos que estava dizendo alguma coisa ao povo. Não consegui escutar o que era, mas, todo mundo começou a gritar “Acaba com ele”. Atrás de mim um homem grandalhão cutucava quem não estava gritando, com um baita porrete. Então, tratei de gritar também, antes de levar alguma porretada. Fiquei torcendo para que isso fosse para Pilatos e não para Jesus. No fundo, sabia que era uma hipótese difícil. Gritaram mais coisas, mas, consegui sair dali. Daí, puseram-lhe uma baita cruz de madeira nas costas e começou um horror inacreditável. Tentei seguir, sem me expor muito, claro. Não consegui ver Jesus vivo mais. Quando consegui me aproximar da cruz Ele já havia morrido.

Chorei a minha traição, covardia, fracasso e impotência.

6 thoughts on “

  1. Moral da história: traidor por omissão é tal qual o traidor por ação, sem tirar nem por.
    Deus tenha misericórdia de nós
    # posted by rubens osorio : 4/27/2006 9:47 AM

  2. Pois é, Lou. Eu também sou um traidor.
    É interessante que Judas foi irremediavelmente condenado para sempre pela cristandade, mas as demais traições como a de Pedro ninguém condena. Pelo contrário, o fato dele ter-se “arrependido” tornou-o um virtuoso na mentalidade cristã, como se o apóstolo da circuncisão não tivesse sobrevivido graças à Graça daquele que predisse a traição. Não temos como afirmar que Judas não foi também abraçado pela mesma Graça, apesar do suicídio que mostra-nos um homem acometido de profundo remorso e desespero pelo que fez, como se dissesse a si mesmo: “Eu jamais deveria ter feito isto!”
    Quem pode garantir que ele não invocou o nome do Senhor naquele momento, na asfixia da corda?
    Isto é apenas especulação minha, mas estou cada dia mais convencido de que naquele dia haverá surpresas…

  3. Todos, naturalmente, traímos Jesus com a mesma paixão. Sábado a ressaca vai ser braba, mas tem sempre o domingo ameaçando amanhecer.

    Neste jogo não há heróis, senhoras e senhores, só peões e o rei.
    # posted by Paulo Brabo : 4/26/2006 8:30 PM

  4. Pois é, Lou. Eu também sou um traidor.
    É interessante que Judas foi irremediavelmente condenado para sempre pela cristandade, mas as demais traições como a de Pedro ninguém condena. Pelo contrário, o fato dele ter-se “arrependido” tornou-o um virtuoso na mentalidade cristã, como se o apóstolo da circuncisão não tivesse sobrevivido graças à Graça daquele que predisse a traição. Não temos como afirmar que Judas não foi também abraçado pela mesma Graça, apesar do suicídio que mostra-nos um homem acometido de profundo remorso e desespero pelo que fez, como se dissesse a si mesmo: “Eu jamais deveria ter feito isto!”
    Quem pode garantir que ele não invocou o nome do Senhor naquele momento, na asfixia da corda?
    Isto é apenas especulação minha, mas estou cada dia mais convencido de que naquele dia haverá surpresas…
    # posted by Hernan : 4/26/2006 3:31 PM

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