Sentimentos

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Mas, volte-se para Ele, quando estiver em grande necessidade, quando toda outra forma de amparo for inútil, e o que você encontrará? Uma porta fechada na sua cara, ao som do ferrolho sendo passado duas vezes do lado de dentro. Depois disso, silêncio. Bem que você poderia dar as costas e ir embora. Quanto mais espera, mais enfático o silêncio se torna. Não há luzes nas janelas. Talvez seja uma casa vazia. Será que, algum dia, chegou a ser habitada? Assim pareceu, certa vez. E essa semelhança era tão forte quanto agora. O que isso pode significar? Por que em tempos prósperos Ele mais parece um comandante e em tempos conturbados Sua ajuda é tão ausente?”

C. S. Lewis em Anatomia de Uma Dor

 

Em muitos textos que escrevi, anteriormente, tratei de revelar a minha perspectiva em relação a Deus. Com isso, inúmeras vezes, fui tomado como um liberal, incrédulo ou qualquer outra coisa nada recomendável. O fato de sentir-me, ora de uma maneira, ora de outra, não me qualifica a candidatar-me a teólogo ou qualquer outra função. São sentimentos e sensações humanas, apenas. Mas elas importam para nós, muito mais do que qualquer outro texto sagrado, posto tratar-se de nossas experiências pessoais.

Agora resolvi seguir um conselho captado no evangelho de Tomé, onde Jesus aconselha a colocar para fora o que tenho em meu interior, antes que isso que está dentro de mim, me mate. Sendo assim, repetirei muitas vezes os meus sentimento em relação a Deus, que não serão, necessariamente, dogmas ou excertos das escrituras sagradas, como fiz anteriormente.

Lewis caminhará comigo, certamente, norteando meu caminho por esse escuro e difícil caminho. Ele o percorreu antes de mim e depois fez seu relato com a mesma perspectiva que eu estou fazendo agora, ou seja, entender o que estou sentido há três anos, desde que meu filho nos deixou através da morte e colocar isso para fora, não para me desligar, mas para conviver de forma sadia.

Desde então, carrego comigo um sentimento que parece medo, como bem diz o Lewis, mas não é medo, embora seja tenebroso. Talvez se fatiar esse sentimento, poderia lhe dizer que é uma culpa insuportável, primeiro. Já refiz aqueles últimos dias em minha mente, centenas de vezes, os dias que antecederam a cirurgia, o dia da cirurgia, o martírio seguinte com dez dias de UTI e o dia mais trágico e infeliz dele e de todos nós. Falando só por mim, o pior dia da minha vida.

Mas é muito mais que isso, temo o que meu filho esteja sentindo agora, onde quer que ele esteja, se assim for, de fato, em relação às minhas escolhas para ele naqueles dias. Temo que ele me censure por não ter me vingado por ele. Temo que ele não me ame mais.

Isso me leva direto aos tempos em que vivemos juntos, especialmente nas nossas saídas juntas, seja para exames, procedimentos hospitalares, consultas, ou para outras formas, como lazer, em especial, no cinema para ver o Harry Potter ou Woody, no show do Roger Hodgson ou outro. Nessas oportunidades, conversávamos, riamos e, às vezes, discordávamos, mas era fantástico.

Uma vez, ele deveria ter uns quatro ou cinco anos e ficamos em casa só nós dois. Dei a ideia de irmos até a padaria tomar sorvete e ele topou na hora. Saímos a pé, encontramos pessoas conhecidas, entramos na padaria, compramos os sorvetes, saboreamos com calma e voltamos. Quando a Dedé chegou ele correu contar para ela nossa aventura. Narrou tudo e no fim exclamou: “foi lindo”. Cara, aquilo me derrubou.

O fato é que meu amor por ele aumentou muito depois que ele se foi. Isso levou o ato de acordar diariamente a ser um incomodo indescritível. Pois quando acordo, em algum momento acabo me dando conta que ele não está mais entre nós. Naquele instante, sinto desamparo, abandono, medo, abandono e mais uma variedade enorme de sentimentos. Deus se mantém em silêncio sobre isso, até hoje.

Outras vezes, durante o dia, na maioria das vezes quando estou dirigindo meu auto, deixo minha mente livre para pensar e lembrar dele. Conforme vou fazendo isso, começo a temer o que sempre acontece no final, me dar conta que não o verei nunca mais, pelo menos não aqui. Nesses momentos choro compulsivamente, a ponto de impressionar uma ou outra pessoa que esteja me bisbilhotando.

Diante desses sentimentos todos é inevitável que eu pergunte onde Deus estava quando meu filho nasceu e mais ainda quando ele morreu. Sei que você entendeu ser o fim o momento mais trágico. Mas no caso do Thomas, o dia que ele nasceu, junto à alegria da chegada de nosso terceiro filho, veio a tragédia de constatar que ele tinha um problema enorme e complexo no aparelho circulatório e que talvez não sobrevivesse nem 24 horas.

Muitas vezes brinquei escrevendo que procurara Deus, mas ele não estava. Talvez estivesse pescando em alto mar, sem celular ou qualquer forma de comunicação. Sou obrigado a admitir que Deus resolveu pescar naqueles dias, tanto nos dias em torno do nascimento quanto nos dias em torno de sua morte. Clamei desesperado naquelas madrugadas, mas ele não me atendeu e nem sequer deu sinal de vida.

Fiquei ali sem saber o que dizer ou muito menos o que fazer quando nos deram a notícia. Deus não fizera nada para evitar aquilo. Naquele momento, e todas as vezes que penso nesse instante determinado, senti outro sentimento que nunca havia sentido, ou seja, Deus não me amava como eu acreditava e agira como quem não nos ama na hora em que mais precisamos dele.

§§§§§§

 

*Da série: Sombras de um sofrimento

lousign

 

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