A Gruta do Lou

11 de setembro de 2001

Os primeiros sintomas de fadiga da cirurgia do Thomas começavam a aparecer. O Dr. Carvalho do Hospital S. Paulo (hoje hospital da UNIFESP) solicitou uma Cintilografia. O exame foi marcado para o dia 11 de setembro de 2001, no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, às 12 horas. Morávamos em Sorocaba e decidimos sair de casa às 9 horas para chegar na hora. Quando abrimos a porta da frente para nos dirigirmos ao nosso carro, que ficava estacionado na frente da casa em local coberto, ainda do lado de dentro, havia um homem da Cia. De Luz parado em frente ao nosso portão. Ele logo anunciou que sua missão era cortar o fornecimento de luz para a nossa casa. Não havia tempo para argumentar, sob risco de nos atrasar para o exame. Os nossos filhos mais velhos ficariam em casa e precisariam de luz. Antes que eu argumentasse ele adiantou que cortaria no relógio e assim que ele saísse eu poderia religar e até me ensinou como fazer a coisa em segurança.

Luz religada, viagem iniciada. O dia parecia um pouco estranho, embora fizesse sol e o céu estivesse lindo, com poucas nuvens. A viagem foi tranquila e alcançamos à Av. Paulista, em Sampa, bem antes do horário previsto. Enquanto conversávamos, a rádio FM nutria-nos com músicas ao fundo. De repente parou e uma voz lacônica anunciou o atentado à uma das torres gêmeas em Nova Iorque. No primeiro instante, pensávamos ser algum tipo de propaganda, afinal aquela emissora só tinha programação musical. Logo a notícia foi repetida e entendemos a gravidade do ocorrido.

Assim chegamos ao hospital. Depois de deixar o carro no estacionamento, nos dirigimos ao guichê, no saguão de entrada do hospital. Aquilo parece mais um hotel internacional do que um hospital. Perguntei onde era o local do exame e, enquanto a jovem atendente foi buscar a informação, percebi que havia uma nota de R$ 10,00 no chão. Peguei a nota e vi um ator muito conhecido passando por ali. Aquilo desviou minha atenção, a Dedé me apressou e seguimos na direção indicada. A sala de espera era enorme com vários aparelhos de TV à disposição. O Thomas logo foi chamado e partiu para o exame acompanhado da mãe e sem ninguém reparar neles.

Fiquei olhando uma das TVs, bem à minha frente, no alto. O Carlos Nascimento estava dando as últimas informações enquanto imagens do avião entrando na torre eram repetidas. A seguir, uma repórter da Globo entrou ao vivo de Nova Iorque, tendo as torres como pano de fundo, uma delas em chamas e enquanto ela falava um outro avião apareceu, não se sabe de onde, e o que vi foi ele entrar com tudo na outra torre, seguindo-se uma explosão com muito fogo. O Nascimento retomou a palavra, muito emocionado, explicando que a outra torre acabara de ser atingida, também. Fiquei paralisado, as pessoas na sala gritavam oh, oh, que horror, etc.

A primeira coisa que veio a minha mente foi a mais do que provável presença de milhares de pessoas naqueles prédios, naquela hora. Elas precisavam sair rápido. Meu Deus, e as pessoas nos andares acima dos que foram atingidos? Estive nesses prédios, subi até o andar intermediário onde era preciso trocar de elevador pagando quinze dólares para ir até o terraço. Fiquei por ali saboreando um café quentinho enquanto as pessoas que estavam comigo seguiram viagem até o topo. Então fazia uma boa ideia do lugar. Aquela gente toda precisaria subir e para ser retirada por helicópteros, certamente. Deviam ser centenas.

A Globo repetiu as duas imagens, do choque com a primeira torre e logo depois o da outra torre. O exame do Thomas acabou e eles saíram para a sala de espera. Novamente, ninguém reparou neles. A TV mostrava as pessoas saindo dos prédios, os bombeiros e a polícia chegando e iniciando as operações, quando algo inesperado ocorreu. A primeira torre atendida começou a cair, como um prédio em uma implosão, veio inteirinho abaixo. O Nascimento ainda estava lamentando aquela coisa horrorosa quando a outra começou a ruir também, caindo igualzinho a primeira. Não sobrou nada. Todo mundo com perplexo olhando fixo para as TVs. Só consegui pensar nas pessoas que não haviam conseguido sair a tempo, e as que estavam nos andares acima dos atingidos, não teriam mais a menor chance de escapar dali com vida, salvo algum milagre. Meus olhos marejaram.

Se bem me lembro, saímos dali e fomos almoçar na casa de minha mãe. A Globo não parou de mostrar imagens daquela tragédia. Horas depois, um prédio menor do mesmo conjunto, que não foi atingido pela queda das torres, mas estava em chamas, também desabou inteirinho, tudo com televisionamento ao vivo. Impressionou-me que eles tivessem tantas câmeras postadas, como se já esperassem pelo acontecimento. Aquela foi a primeira pergunta a me incomodar. Em especial, uma imagem de um homem sentado em uma cadeira de engraxate tendo as torres ao fundo, a câmera pegando o homem e os prédios de baixo para cima. Lembrei da cena dos aviões entrando nos prédios, na primeira tentativa, eram boeings enormes. Aquilo era fantástico demais. Então comecei a desconfiar.